HOJE, 20 DE OUTUBRO, DIA DO POETA

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Os poetas no quadro da esquerda para a direita: Bernardo Souto, Claudio Sousa Pereira, Emmanuel Santiago, Felipe Stefani, João Filho, Lorena Miranda Cutlak, Silvério Duque, Wladimir Saldanha.

Os grandes poetas chamados pela eternidade nela estão bem acolhidos. Em todos os cantos deste país e do mundo alguém dedica parte do seu tempo ao estudo dos seus poemas. Eles nos tornam mais conhecedores do mundo, mais conhecedores da vida: Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Eliot, Ungaretti, Montale, Jorge de Lima…  

E os poetas de hoje? Alguns deles passam nos estreitos caminhos em busca da larga estrada, cujos passos seguimos para ouvir os seus poemas, fôlegos nossos de cada dia. A eles, jovens da arte poética e do amor pelos eternos, verbalizamos:

Feliz Dia do Poeta Bernardo Souto, Claudio Sousa Pereira, Emmanuel Santiago, Felipe Stefani, João Filho, Lorena Miranda Cutlak, Silvério Duque, Wladimir Saldanha. Deus guarde os seus dias.

O POEMA NÃO ESCRITO

(Para Diana Cavalcanti)

(…)

O poema que não escrevi

Jamais poderá ser escrito

Porque ninguém

Seria capaz de recitá-lo.

[Bernardo Souto: O Corvo e o Colibri, Editora Mondrongo, 2015]

***

EPIFANIA

(…)

na dimensão concedida em viver,

que a natureza da existência aponta:

— A consciência, a causa, a ordem, o ser.

[Claudio Sousa Pereira, da sua “Coletânea de Poemas” não publicados]

***

CUNILINGUS

A palavra no dicionário

aguarda em seu estado bruto

de coisa entorpecida; ao poeta

cabe despertá-la, despetalando-a

sílaba por sílaba, e diluí-la na saliva,

na ponta da língua, enfim, chupá-la

até que a palavra, lúcida e deflorada,

transborde de gozo — em poesia.

[Emmanuel Santiago: Pavão Bizarro, Editora Patuá, 2014]

***

FÁBULA

(…)

Cantador, de mãos atadas ao silêncio,

Que fazes com esta morte

Entrelaçada em teu tempo?

(…)

POETA

No verso estou vivo, estou sonhando.

(…)

[Felipe Stefani, Verso para outro sentido, Editora Escrituras, 2010]

***

PÓS-FÁBULA

(…)

E não buscava só memória,

nome num muro ou numa mente,

mas extrair o cerne vivo

do que ontem fora e é presente.

(…)

[João Filho, A Dimensão Necessária, Editora Mondrongo, 2014]

***

A PONTE

(…)

ergue-se o verbo, a linguagem – ponte

entre o sensível e a eternidade.

[Lorena Miranda Cutlak, Editora Mondrongo, 2015]

***

UM INSTANTÂNEO PÓSTUMO

ANTE A MÁSCARA MORTUÁRIA DE BRUNO TOLENTINO:

À SUA MANEIRA, MAS COM CERTA LICENÇA…

(ao sempre presente Jessé de Almeida Primo)

(…)

colhendo e replantando o que perdemos

entre o arado e a imarcescível erva

seguindo sós… entre o silêncio e a treva.

[Silvério Duque, Editora É Realizações, 2013]

***

EM MEMÓRIA

Foram uns goles de vinho,

e uma conversa de versos.

[Wladimir Saldanha, Culpe o Vento, Editora 7 Letras]

₊⁺₊

ONDE ENCONTRAR OS LIVROS CITADOS:

O Corvo e o Colibri, Bernardo Souto: http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=96

Pavão Bizarro, Emmanuel Santiago: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=240

Verso para outro sentido, Felipe Stefani: http://www.escrituras.com.br/products.php?product=Verso-para-outro-sentido

A Dimensão Necessária, João Filho: http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=31

O Corpo Nulo, Lorena Miranda Cutlak: http://mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=93

Ciranda de Sombras, Silvério Duque: http://www.erealizacoes.com.br/produto/ciranda-de-sombras

Culpe o Vento, Wladimir Saldanha: https://www.7letras.com.br/culpe-o-vento.html

PRÊMIO OCEANOS: O POETA WLADIMIR SALDANHA É SEMIFINALISTA

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Categoria Poesia

Wladimir Saldanha, autor de Cacau Inventado

Um júri de 42 profissionais leu e avaliou os 740 livros concorrentes ao Oceanos – Prêmio de Literatura em língua Portuguesa e selecionou 50 obras semifinalistas que passam, agora,  para a segunda etapa de seleção.

O anúncio foi feito hoje no site do Itaú Cultural. Nesta etapa, o júri de avaliação foi formado por 42 especialistas em literatura, entre poetas, escritores, professores e críticos literários, classificou os títulos que passam para a fase seguinte: 18 são livros de poesia, 25 romances, seis de contos e um de crônicas.

O júri de avaliação elegeu, ainda, seis jurados entre seus membros para compor os júris das próximas etapas: a crítica literária e ensaísta Flora Sussekind (a confirmar), os escritores  Cristovão Tezza, José Castello e Rodrigo Lacerda e os poetas Heitor Ferraz e Sergio Alcides, democraticamente eleitos pelo corpo inicial de jurados.

Entre outubro e novembro, o Júri Intermediário avalia as 50 obras semifinalistas. Em 18 de novembro, indica os 10 finalistas. Por fim, o Júri Final escolherá, no dia 6 de dezembro, os quatro vencedores. Os curadores são Selma Caetano e Manuel da Costa Pinto.

SEMIFINALISTAS — POESIA

139 epigramas para sentimentalizar pedras, Boaventura de Sousa Santos, Confraria do Vento

Ainda: em viagem, Age de Carvalho, Editora da UFPA

Caçambas, Ruy Proença, Editora 34

Cacau inventado, Wladimir Saldanha, Mondrongo

Wladimir Saldanha

Capa do livro Cacau Inventado (Editora Mondrongo)

Claranã, Cida Pedrosa, Confraria do Vento

De terra, vento e fogo, Lica Sebastião, Kapulana

Dois [lugares onde eu não estou], Paloma Vidal, 7Letras

Escuta, Eucanaã Ferraz, Companhia das Letras

Jóquei, Matilde Campilho, Editora 34

Logomaquia, Júlia Studart, 7Letras

Manual de flutuação para amadores, Marcos Siscar, 7Letras

Milorde e Medusa, Zuca Sardan, E-galáxia

O livro das semelhanças, Ana Martins Marques, Companhia das Letras

O nome nômade, Angélica Torres Lima, 7Letras

Ópera de nãos, Salgado Maranhão, 7Letras

Outro silêncio, Alice Ruiz S (foto), Companhia das Letras

Porcelana invisível, Fernando Paixão, Cosac Naify

Sermões, Nuno Ramos, Iluminuras

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — ROMANCE

A rainha Ginga, José Eduardo Agualusa, Foz

A resistência, Julián Fuks, Companhia das Letras

A segunda pátria, Miguel Sanches Neto, Intrínseca

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, Alfaguara

Atlântico, Ronaldo Correia de Brito, Mariposa Cartonera

Bazar Paraná, Luis S. Kraus, Benvirá

Colosso, Teixeira Coelho, Iluminuras

Enigmas da primavera, João Almino, Record

Galveias, José Luiz Peixoto, Companhia das Letras

Írisz: as orquídeas, Noemi Jaffe, Companhia das Letras

Luxúria, Fernando Bonassi, Record

Mulheres de cinzas, Mia Couto, Companhia das Letras

Não é meia-noite quem quer, Lobo Antunes, Alfaguara

O ano em que vivi de literatura, Paulo Scott, editora Foz

O frágil toque dos mutilados, Alex Sens, Autêntica

O grifo de Abdera, Lourenço Mutarelli, Companhia das Letras

O padeiro polonês, Halina Grynberg – 7Letras

O pecado de Porto Negro, Norberto Morais, LeYa

O próximo da fila, Henrique Rodrigues, Record

Pssica, Edyr Augusto, Boitempo

Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis, Carlos Eduardo de Magalhães, Grua

Turismo para cegos, Tércia Montenegro, Companhia das Letras

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares, Companhia das Letras

Volto semana que vem, Maria Pilla, Cosac Naify

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — CONTO

Antes que seque, Marta Barcellos, Record

Cabeça de mulher olhando a neve, Jéferson Assumção, BesouroBox

Fisiologia da idade, Ricardo Lísias, E-galáxia

Jeito de matar lagartas, Antonio Carlos Viana, Companhia das Letras

Maracanazo, Arthur Dapieve, Alfaguara

Na escuridão não existe cor-de-rosa, Cinthia Kriemler, Patuá

O amor das sombras, Ronaldo Correia de Brito, Alfaguara

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — CRÔNICA

Na dobra do dia, Marcelo Moutinho, Rocco

FONTE http://saopauloreview.com.br/premio-oceanos-divulga-semifinalistas/

RECOMEÇO

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Claudio Sousa Pereira

E depois de marejado
               os olhos
respirar
respirar profundamente
expandindo o peito
desarqueando os ombros
               e lentamente
erguer o cenho
— na confiança do porvir —
desajoelhar
levantar
                   e seguir.

 

***

SOBRE O AUTOR, diz o poeta JOÃO FILHO*: Claudio Sousa Pereira pertence à linhagem poético-espiritual do chamado neossimbolismo brasileiro. E espiritual diz tudo sobre o fazer literário desse jovem poeta, que alia uma inteligência sensível, o rigor formal, a contemplação filosófica e amorosa-metafísica do mundo além da musicalidade do verso. Das formas fixas escolhidas por ele a mais cultivada é o soneto. Porém, ao trabalhar a terça rima em poemas de fôlegos mais longos — “O caminhante” e “O sobrevivente”, para ficarmos em dois exemplos — Claudio Sousa Pereira realiza-se de modo exemplar, demonstrando capacidade narrativa-reflexiva e dramática. Consciente de sua faina poética, ele sabe o risco que corre ao dar às suas composições um tom passadista, sem, com isso, incorrer em anacronismos. Com paciência e lucidez Claudio Sousa Pereira prepara o seu primeiro single: Sentida música.

*João Filho é também. Publicou “Encarniçado” (2004), Três Sibilas (2008) “Ao longo da linha amarela” (2009), A Dimensão Necessária (2014), premiado em 2015 pela Biblioteca Nacional como o melhor livro de poemas do Brasil, “Dicionário Amoroso de Salvador” (2014). Participou de várias antologias no Brasil e no exterior, entre elas “Travessias Singulares – Pais e filhos” (2008) e “Geração Zero Zero: fricções em rede” (2011).

O OUTRO MENINO GRAPIÚNA

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De Wladimir Saldanha para Emmanuel Santiago

EMMANUELSANTIAGO quadro

Não fui do que cortasse a cana em talo:
do pai que tocaiaram, coronel.
Não me tirou do chão, lavado em sangue,
se a égua é que morreu – nem ele ou eu.

Do pai que tocaiaram, coronel,
o ínsito jagunço, por matá-lo,
mirou repetição, e o cavalo,
o longe galopou, mas outro – o seu.

O tal da cana foi quase em Sequeiro
do Espinho, quando ainda era Itabuna;
e se diz não nasceu em Pirangi

- que a viu nascer -, tudo isso eu também vi:
o arco do céu, o sangue, o pai em suma.
Tocaia, coronel: eu não nasci.

***

Soneto da p. 64 do livro de poemas CACAU INVENTADO (Mondrongo, 2015), de Wladimir Saldanha. Emmanuel Santiago é autor do livro de poemas PAVÃO BIZARRO (Patuá, 2014).

***

poeta-Wladimir-SaldanhaWladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor, dentre outras obras, de AS CULPAS DO POEMA (Editora Scortecci, 2012, vencedor do X Prêmio Literário Asabeça); DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI (contos, inédito – menção do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012) e mais dois livros de poemas, ambos lançados pela Editora 7Letras: LUME CARDUME CHAMA (2013) e CULPE O VENTO (2014). Em 2015 nos presenteou com mais um livro de poemas: CACAU INVENTADO (Editora Mondrongo).

MARTIM-PESCADOR

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Wladimir Saldanha*

MARTIM-PESCADOR

Assim o submerso e o rasante.
Ambas: a esquivança e a rapina.
E tanto barbatanas como asas.
Nem navio, nem avião: os dois

num só. Queríamos o Martim-
pescador, ou o peixe que ora sobe
em sua posse; sua pose, porém
igualmente preteri-la, sim:

a desnecessidade dela… Queríamos
o Pégaso, queríamos a Hidra, queríamos
o Sonho: temos uma outra mão.

No mundo, a alguém que for
Martim, a algum pescador,
Faltará um traço de união.

***
Soneto do livro LUME CARDUME CHAMA (Editora 7Letras, 2013), p.38.

***

poeta-Wladimir-Saldanha*Wladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor, dentre outras obras, de AS CULPAS DO POEMA (Editora Scortecci, 2012, vencedor do X Prêmio Literário Asabeça); DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI (contos, inédito – menção do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012) e mais dois livros de poemas, ambos lançados pela Editora 7Letras: LUME CARDUME CHAMA (2013) e CULPE O VENTO (2014). Em 2015 nos presenteou com mais um livro de poemas: CACAU INVENTADO (Editora Mondrongo).

 

MONDRONGO E PATUÁ

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Emmanuel Santiago e João Filho

AMIGOS LEITORES, recomendo a matéria “Faça, divulgue e venda você mesmo”, escrita por Omar Godoy para o Jornal da Biblioteca Pública do Paraná. Na matéria, duas editoras especiais, a Mondrongo e a Patuá, ambas, respectivamente, responsáveis pela publicação de dois importantes livros de poemas em 2015: A DIMENSÃO NECESSÁRIA, do poeta baiano João Filho e PAVÃO BIZARRO, do poeta mineiro e paulista por escolha, Emmanuel Santiago. Eis alguns trechos:

Recorrer a editais e leis de incentivo, no entanto, não é uma prática comum entre as microeditoras. (…) há quem repudie totalmente a ideia, como o dono da editora Mondrongo, de Itabuna (BA), Gustavo Felicíssimo, 45 anos. “Sou produtor cultural, minha especialidade é a adequação de projetos voltados para as leis de incentivo. Mesmo assim, desisti de participar de editais há três anos”, revela. 

Ele vê uma “movimentação maléfica” em torno desses recursos, e lamenta que parte do cenário literário dependa deles para existir. “Estamos vendo o surgimento de ‘editoras de editais’ e até de ‘escritores de editais’. Isso é muito pobre, além de comprometer o futuro da literatura”, diz. Na ativa desde 2011, a Mondrongo foi concebida para ser um braço editorial do Teatro Popular de Ilhéus, uma das instituições culturais mais conhecidas da Bahia. Há três anos, desvinculou-se do grupo e hoje é conduzida apenas por Felicíssimo, que prioriza a literatura nordestina acima de tudo.

“Literatura não se faz de cima para baixo. Raramente um autor extrapola os limites de sua região. Não tenho ilusões quanto a isso”, justifica, ressaltando que 70% do faturamento da empresa vem justamente de eventos de lançamento realizados na região sul do estado. No final do ano passado, ele viu o nome da Mondrongo entrar definitivamente no mapa literário nacional após a premiação de dois títulos da editora. A dimensão necessária, do poeta João Filho, venceu o Prêmio Biblioteca Nacional. E Canção de ninar estátuas, de Luiz Gilberto de Barros, foi eleito o melhor livro de contos pela União Brasileira dos Escritores.

(…)

a paulista Patuá já é uma das principais referências do cenário “micro”. Nada mal para uma empresa fundada há pouco mais de cinco anos, com um investimento modesto de R$ 4 mil. “Montei a editora com três objetivos em mente: nunca cobrar do escritor, abrir espaço para novos talentos e entregar produtos bonitos, de boa qualidade gráfica”, conta Eduardo Lacerda, dono e “faz tudo” do empreendimento. 

Depois de passar um ano inteiro apenas pesquisando processos e o mercado, Lacerda se apresentou aos leitores com uma proposta ousada para o cenário independente. A Patuá lança cerca de 10 títulos por mês, com tiragem média de 150 exemplares, que são vendidos na internet e em eventos de lançamento Brasil afora. “A loja virtual representa uma boa parte do faturamento, mas eu dependo muito dos lançamentos para fechar as contas”, diz o editor, que já acumula 350 títulos publicados. Boa parte desse catálogo é composta por obras de autores ascendentes, como Paula Fábrio, Elisa Andrade Buzzo, Guilherme Gontijo Flores e Chico Lopes.

A importância dos eventos para a Patuá é tão grande que Lacerda decidiu abrir um misto de bar, café e livraria, o Patuscada. “Se tenho prejuízo com um livro, posso compensar na venda de bebida. No fim, as coisas sempre acabam se equilibrando”, explica. Seu próximo plano é montar uma espécie de hospedagem no local, para abrigar escritores de passagem por São Paulo. “Penso em cobrar apenas uma taxa simbólica. Ou que esses autores, em vez de pagarem, ministrem cursos gratuitos dentro do próprio espaço.”

(…)

Questionados sobre os planos de expansão de seus negócios, os editores procurados pelo Cândido são enfáticos: a meta é se consolidar no mercado, mas o crescimento deve acontecer de forma sustentável e, acima de tudo, independente. “Existe uma ideologia por trás do que eu faço, não sou só um empreendedor”, garante Gustavo Felicíssimo, da Mondrongo.

FONTE http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1082

MINHA PALAVRA

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João Filho*

RETRATO ÁLLEX LEILLA

Se lugar de nascimento é destino, ao nascermos na mesma cidade, parece que estávamos amorosamente destinados um ao outro. Mais: a música do nosso primeiro cenário é um desenho melódico de duas ruas de nossa infância – Francisco Magalhães e Castro Alves; esta é travessa daquela. Alessandra é três anos mais velha, passou parte de sua meninice na Francisco Magalhães. Minha primeira lembrança de estar no mundo foi na Castro Alves. No semiárido do médio São Francisco, naquela cidade do interior da Bahia. Costumo dizer que houve uma canção das ruas antes de nos encontrarmos.

E nos encontramos algumas décadas depois. Mais precisamente numa noite de abril, de 2006. Um sábado. Sim, me lembro; um amor assim traz em sua túnica fios de eternidade. Alessandra é uma presença. Se ela não estiver por perto, o mundo fica um pouco mais errado.

Quis captá-la através de versos. Vagueei em torno do objeto sem conseguir capturá-lo. Foram e são várias tentativas de poemas. É o sorriso? E que lume despertando em mim o menino mais antigo. É um jeito de olhar que só eu sei? E que acolhimento para as minhas dores e indecisões. É aquele tom de voz que me faz gargalhar? A luz do rosto confirmando a vida? O corpo refugiando o outro? Quando a mulher que amamos se entrega… Ah, meu caro, se não sabe, procure adivinhar. O gozo do corpo é também um tipo de milagre.

Nos desentendemos? Claro. Brigamos? É óbvio. Embora poucas, essas desavenças são uma angústia para mim. Verdadeiro desamparo. Não consigo me apaziguar se não retornar à velha harmonia. Aquela comunhão silenciosa da presença. O fato incontornável é amar Alessandra inteiramente. Não importam circunstâncias ou acontecimentos. 

Em 1997, eu estava no lançamento de Urbanos, seu primeiro livro, de contos, vencedor de prêmio. Sou fã antes de nos conhecermos pessoalmente, porque Alessandra foi meu primeiro modelo literário. Um tipo de norte que eu acompanhava, de longe, bem longe, Bom Jesus da Lapa. Lá, um amigo me emprestou seu segundo livro de contos – Obscuros. Seu primeiro romance – Henrique – li sofregamente; quando ela esteve na cidade para o lançamento, eu não tive condições de comparecer, mas pedi à minha ex-mulher que comprasse e pedisse um autógrafo à autora. Acompanhei entrevistas, textos em jornais, de longe mapeava seus passos. Na foto numa matéria de jornal, vi quando ela cortou o cabelo curtinho. A força, a coragem, a beleza de sua escrita, sua postura diante da arte literária sempre foi um exemplo a ser seguido. As poucas vezes que nos deparamos antes do Encontro (com maiúscula porque foi evento de altíssima gravidade), eu a olhava admirado e besta. Uma vez, na década de 1990, numa palestra na biblioteca central da UFBA, eu fui só com o intuito de vê-la. Sentei-me num lugar estratégico e a fiquei procurando. Soube, também através de jornais, quando ela foi fazer o doutorado em Belo Horizonte. Nos outros livros, já estávamos juntos, lemos na cama o original de O sol que a chuva apagou; gritamos em uníssono ao sabermos do prêmio conquistado por seu romance Primavera nos ossos. Quando ela ganhou um prêmio por seu conto “Felicidade não se conta”, que está em Chuva secreta, rimos em parceria de uma foto que ela teve que tirar segurando um cheque gigante, tipo Porta da Esperança, de Sílvio Santos.

Uma vez, já morando juntos, eu escrevendo no micro, e como sempre, absorvido feito um lunático, ela me disse: “– Está trabalhando, meu amor?” Entrei em outra dimensão. Ah, meu caro, você pode achar isso excessivo, que exagero, tempestade numa gota, mas ninguém nunca havia levado em consideração que aquela entrega à escrita fosse um trabalho. E a escrita, para dizer com Drummond, é toda a minha vida que joguei. Disfarcei uma lágrima, e respondi, numa felicidade imensa, que sim, estava trabalhando. Ela me ajudou a aceitar o poeta que eu sou.  

Num fevereiro, dia do meu aniversário, ela combinou com nosso amigo Kiko Lisboa, e este, com a cara mais lavada, me pediu, à noite, para ir com ele pegar um computador. Onde? Nordeste de Amaralina. Fazer o quê? Fui. Mas fui a contragosto. Kiko, lapense ele também, possui esses rompantes, daí eu não ter estranhado tanto. Logo no dia dos meus anos? Ele me segurou por lá. Na volta, ao entrar em casa – uma festa surpresa para mim. Pense num contentamento? Pensou? Foi maior. Sim, adoro comemorar aniversário.

Quando descubro um poeta que eu não conhecia, displicentemente deixo o livro em algum lugar visível da casa para que ela pegue e leia. Torço para que goste dos poetas que admiro. Faço de conta que não estou interessado, mas basta ela falar que minha atenção se concentra inteira em suas impressões críticas sobre o livro em questão.  

Ah, meu caro, você não faz ideia da alegria que me tomou ao perceber que ela percebia o que eu percebera no universo da literatura. Não tentarei explicar, mas… Ao ler determinado autor, ela exclama: “– Ele sabe!” Como se diz hoje: entendedores entenderão. Conhece aquele instante que parece que o tempo foi suspendido, e o véu da vida foi levantado e as coisas se tornam mais reais? Se não conhece, deveria. Pois é. Quando aconteceu, percebemos isso um no outro.

Nas alegrias profundas ou decepções tremendas, Alessandra é sempre a primeira pessoa que me vem à cabeça. Sinto necessidade de dividir com ela o que acabo sabendo. Por isso, meu caro, cuidado ao me contar segredos. É contar para os dois.

Alessandra - João Filho

Em inúmeros momentos, nesses dez anos de convivência, me pego novamente apaixonado. Até hoje me espanto e digo cá com meus botões joãoninos: “– Caramba! Estou casado com Állex Leilla.” É feito as manhãs: nascem todos os dias e são sempre originais. Apesar da sentença de mestre Bandeira no poema “Arte de amar”, tenho a nítida sensação de que aquela melodia das ruas era e é uma melodia de almas.  

Alessandra é minha palavra.

*** 

Fontehttp://voosempouso.blogspot.com.br/

*João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA) em 1975. Escritor e poeta laureado com o PRÊMIO BIBLIOTECA NACIONAL em 2015 (categoria poesia) com a obra A dimensão necessária (Mondrongo, 2014), participou de algumas antologias, dentre elas: Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña (Emecé 2007, Argentina); Travessias singulares – Pais e filhos (Casarão do Verbo, 2008); Geração Zero Zero, fricções em rede (Língua Geral, 2011); Popcorn unterm Zuckerhut (Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha). Publicou Encarniçado, contos (Baleia, 2004); Ao longo da linha amarela, contos (P55, 2009); Dicionário amoroso de Salvador, crônicas (Casarão do Verbo, 2014).

VÍRGULA

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VÍRGULA

És uma foice?
Morte ou comuna?
És uma lágrima
e feres, verruma.

Ó scarpin
de ponta-cabeça!
Cílio postiço,
fivela, sevícia…

Corta esse fôlego
mesmo na dor;
talha esse leite:

sê, culinária,
a gota cítrica!
Céu, inferno, vírgula.

Fonte: http://wladimirsaldanha.blogspot.com.br/ 

poeta-Wladimir-SaldanhaWladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor dos seguintes livros de poemas: LUME CARDUME CHAMA (7Letras, 2013), CULPE O VENTO (7Letras, 2014) e CACAU INVENTADO (Mondrongo, 2015).

EU QUERIA OUVIR O SILÊNCIO…

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Luiz Bragança de Pina*

O sol se pondo. Mochila de livros nas costas rumo à montanha (combinamos um lugar que fosse alto e distante) e aí entender por diálogos afins o som do silêncio. Chego e os amigos aguardam-me. João Filho, à minha direita, acompanha-me na jornada adentro. Escuridão. Os ruídos da caminhada. Não mais ouço os seus passos; segundos depois, escuto a sua voz: “o silêncio é a fala que o deus dá?”1.  Um vulto brilhante repentinamente surge na escuridão e nos meus ouvidos “(…) miava silêncio”2. Comovi-me e olhei para dois pontos luminosos…

A escuridão afirmava-se azulada. A noite é azul, bem sei. Flaubert atenta por alguns instantes, escreve, reescreve, verbaliza: “(…) e por toda a parte um silêncio tal que se podia ouvir o roçar de uma faixa de seda ou o eco de um suspiro.”3, que vai longe. Sossego-me de olhos fixados no horizonte monocromático e Alberto de Oliveira complementa: “No silêncio geral, o eco dos montes.”4. A escuridão da noite de um azul denso havia sido marcada pelo frio doloroso, e Cruz e Souza então simboliza: “Silêncio dos silêncios sugestivos (…)”5.

A minha mão direita, a mão direita do João, um aperto forte seguido de um abraço fraterno que, no seu portar metafísico, distancia-se na perscruta do silêncio, quando declama: “Escuro como silêncio puro./Música?/Não soubemos.”6. Aconchego-me a um monte com um grosso manto e cubro todo o meu corpo. Adentro da escuridão e de mim volteios de andorinhas à espreita-despedida dos amigos, quando vejo os meus olhos olhando João montanha acima com uma andorinha sobre a sua cabeça, na companhia de dois pontos luminosos trotando… Eram os olhos do gatinho preto da Cecília Meireles, o mesmo sofrido bichinho “tão sujo”7 que “parecia cinzento”8. Batia rápido o coração da poetisa por um lugar onde o gatinho ficasse “protegido e consolado”9. Então a minha voz reverberou na abóbada celeste: “Cecília, anuncio, para consolá-la, que aqui o seu gatinho não mia ‘vazio’, ele vive e o ‘o espírito do amor’ não mais vai chorando no seu peito, alegrado por seu bom amigo de poesia e de silêncio, do mesmo silêncio anunciado numa crônica sua sê-lo ‘(…) privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.’10 Lembra?”.

Ao longe, o miado feliz do gatinho ergue-me da escuridão para os meus ouvidos receberem os trinos das andorinhas (trilha sonora da primavera)…

“Como é o som do silêncio?”.

***

1 – “A Dimensão Necessária” (Mondrongo: 2014), de João Filho, p. 69.

2 – Da crônica ‘Imagem”, p. 17 e também as notas 7, 8 e 9, p. 18; nota 10 para a crônica “O Livro da Solidão”, p.119,  in: “Coleção Melhores Crônicas – Cecília Meireles”, seleção  e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho para a Editora Global 2012.

3 – Do conto “Lenda de São Julien Hospitaleiro”, in “Três contos”, de Gustave Flaubert, trad. Flávio Moreira da Costa para a LP&M, 2010, p. 71.

4 – Do poema “Velha Fazenda”, in “Nossos Clássicos”, organização de Geir Campos para a editora Agir, Rio de Janeiro, 1959, p. 70.

5 – Do poema “Esquecimento”, in “Obras Poéticas – Broquéis e Faróis”, de Cruz e Souza, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1945, p. 99.

6 – Do livro (PDF) “Três Sibilas & Fluxomargem” (2005), de João Filho.

*

Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista, cronista e roteirista audiovisual

Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista, cronista e roteirista audiovisual