HOJE, 20 DE OUTUBRO, DIA DO POETA

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Os poetas no quadro da esquerda para a direita: Bernardo Souto, Claudio Sousa Pereira, Emmanuel Santiago, Felipe Stefani, João Filho, Lorena Miranda Cutlak, Silvério Duque, Wladimir Saldanha.

Os grandes poetas chamados pela eternidade nela estão bem acolhidos. Em todos os cantos deste país e do mundo alguém dedica parte do seu tempo ao estudo dos seus poemas. Eles nos tornam mais conhecedores do mundo, mais conhecedores da vida: Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Eliot, Ungaretti, Montale, Jorge de Lima…  

E os poetas de hoje? Alguns deles passam nos estreitos caminhos em busca da larga estrada, cujos passos seguimos para ouvir os seus poemas, fôlegos nossos de cada dia. A eles, jovens da arte poética e do amor pelos eternos, verbalizamos:

Feliz Dia do Poeta Bernardo Souto, Claudio Sousa Pereira, Emmanuel Santiago, Felipe Stefani, João Filho, Lorena Miranda Cutlak, Silvério Duque, Wladimir Saldanha. Deus guarde os seus dias.

O POEMA NÃO ESCRITO

(Para Diana Cavalcanti)

(…)

O poema que não escrevi

Jamais poderá ser escrito

Porque ninguém

Seria capaz de recitá-lo.

[Bernardo Souto: O Corvo e o Colibri, Editora Mondrongo, 2015]

***

EPIFANIA

(…)

na dimensão concedida em viver,

que a natureza da existência aponta:

— A consciência, a causa, a ordem, o ser.

[Claudio Sousa Pereira, da sua “Coletânea de Poemas” não publicados]

***

CUNILINGUS

A palavra no dicionário

aguarda em seu estado bruto

de coisa entorpecida; ao poeta

cabe despertá-la, despetalando-a

sílaba por sílaba, e diluí-la na saliva,

na ponta da língua, enfim, chupá-la

até que a palavra, lúcida e deflorada,

transborde de gozo — em poesia.

[Emmanuel Santiago: Pavão Bizarro, Editora Patuá, 2014]

***

FÁBULA

(…)

Cantador, de mãos atadas ao silêncio,

Que fazes com esta morte

Entrelaçada em teu tempo?

(…)

POETA

No verso estou vivo, estou sonhando.

(…)

[Felipe Stefani, Verso para outro sentido, Editora Escrituras, 2010]

***

PÓS-FÁBULA

(…)

E não buscava só memória,

nome num muro ou numa mente,

mas extrair o cerne vivo

do que ontem fora e é presente.

(…)

[João Filho, A Dimensão Necessária, Editora Mondrongo, 2014]

***

A PONTE

(…)

ergue-se o verbo, a linguagem – ponte

entre o sensível e a eternidade.

[Lorena Miranda Cutlak, Editora Mondrongo, 2015]

***

UM INSTANTÂNEO PÓSTUMO

ANTE A MÁSCARA MORTUÁRIA DE BRUNO TOLENTINO:

À SUA MANEIRA, MAS COM CERTA LICENÇA…

(ao sempre presente Jessé de Almeida Primo)

(…)

colhendo e replantando o que perdemos

entre o arado e a imarcescível erva

seguindo sós… entre o silêncio e a treva.

[Silvério Duque, Editora É Realizações, 2013]

***

EM MEMÓRIA

Foram uns goles de vinho,

e uma conversa de versos.

[Wladimir Saldanha, Culpe o Vento, Editora 7 Letras]

₊⁺₊

ONDE ENCONTRAR OS LIVROS CITADOS:

O Corvo e o Colibri, Bernardo Souto: http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=96

Pavão Bizarro, Emmanuel Santiago: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=240

Verso para outro sentido, Felipe Stefani: http://www.escrituras.com.br/products.php?product=Verso-para-outro-sentido

A Dimensão Necessária, João Filho: http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=31

O Corpo Nulo, Lorena Miranda Cutlak: http://mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=93

Ciranda de Sombras, Silvério Duque: http://www.erealizacoes.com.br/produto/ciranda-de-sombras

Culpe o Vento, Wladimir Saldanha: https://www.7letras.com.br/culpe-o-vento.html

PRÊMIO OCEANOS: O POETA WLADIMIR SALDANHA É SEMIFINALISTA

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Categoria Poesia

Wladimir Saldanha, autor de Cacau Inventado

Um júri de 42 profissionais leu e avaliou os 740 livros concorrentes ao Oceanos – Prêmio de Literatura em língua Portuguesa e selecionou 50 obras semifinalistas que passam, agora,  para a segunda etapa de seleção.

O anúncio foi feito hoje no site do Itaú Cultural. Nesta etapa, o júri de avaliação foi formado por 42 especialistas em literatura, entre poetas, escritores, professores e críticos literários, classificou os títulos que passam para a fase seguinte: 18 são livros de poesia, 25 romances, seis de contos e um de crônicas.

O júri de avaliação elegeu, ainda, seis jurados entre seus membros para compor os júris das próximas etapas: a crítica literária e ensaísta Flora Sussekind (a confirmar), os escritores  Cristovão Tezza, José Castello e Rodrigo Lacerda e os poetas Heitor Ferraz e Sergio Alcides, democraticamente eleitos pelo corpo inicial de jurados.

Entre outubro e novembro, o Júri Intermediário avalia as 50 obras semifinalistas. Em 18 de novembro, indica os 10 finalistas. Por fim, o Júri Final escolherá, no dia 6 de dezembro, os quatro vencedores. Os curadores são Selma Caetano e Manuel da Costa Pinto.

SEMIFINALISTAS — POESIA

139 epigramas para sentimentalizar pedras, Boaventura de Sousa Santos, Confraria do Vento

Ainda: em viagem, Age de Carvalho, Editora da UFPA

Caçambas, Ruy Proença, Editora 34

Cacau inventado, Wladimir Saldanha, Mondrongo

Wladimir Saldanha

Capa do livro Cacau Inventado (Editora Mondrongo)

Claranã, Cida Pedrosa, Confraria do Vento

De terra, vento e fogo, Lica Sebastião, Kapulana

Dois [lugares onde eu não estou], Paloma Vidal, 7Letras

Escuta, Eucanaã Ferraz, Companhia das Letras

Jóquei, Matilde Campilho, Editora 34

Logomaquia, Júlia Studart, 7Letras

Manual de flutuação para amadores, Marcos Siscar, 7Letras

Milorde e Medusa, Zuca Sardan, E-galáxia

O livro das semelhanças, Ana Martins Marques, Companhia das Letras

O nome nômade, Angélica Torres Lima, 7Letras

Ópera de nãos, Salgado Maranhão, 7Letras

Outro silêncio, Alice Ruiz S (foto), Companhia das Letras

Porcelana invisível, Fernando Paixão, Cosac Naify

Sermões, Nuno Ramos, Iluminuras

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — ROMANCE

A rainha Ginga, José Eduardo Agualusa, Foz

A resistência, Julián Fuks, Companhia das Letras

A segunda pátria, Miguel Sanches Neto, Intrínseca

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, Alfaguara

Atlântico, Ronaldo Correia de Brito, Mariposa Cartonera

Bazar Paraná, Luis S. Kraus, Benvirá

Colosso, Teixeira Coelho, Iluminuras

Enigmas da primavera, João Almino, Record

Galveias, José Luiz Peixoto, Companhia das Letras

Írisz: as orquídeas, Noemi Jaffe, Companhia das Letras

Luxúria, Fernando Bonassi, Record

Mulheres de cinzas, Mia Couto, Companhia das Letras

Não é meia-noite quem quer, Lobo Antunes, Alfaguara

O ano em que vivi de literatura, Paulo Scott, editora Foz

O frágil toque dos mutilados, Alex Sens, Autêntica

O grifo de Abdera, Lourenço Mutarelli, Companhia das Letras

O padeiro polonês, Halina Grynberg – 7Letras

O pecado de Porto Negro, Norberto Morais, LeYa

O próximo da fila, Henrique Rodrigues, Record

Pssica, Edyr Augusto, Boitempo

Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis, Carlos Eduardo de Magalhães, Grua

Turismo para cegos, Tércia Montenegro, Companhia das Letras

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares, Companhia das Letras

Volto semana que vem, Maria Pilla, Cosac Naify

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — CONTO

Antes que seque, Marta Barcellos, Record

Cabeça de mulher olhando a neve, Jéferson Assumção, BesouroBox

Fisiologia da idade, Ricardo Lísias, E-galáxia

Jeito de matar lagartas, Antonio Carlos Viana, Companhia das Letras

Maracanazo, Arthur Dapieve, Alfaguara

Na escuridão não existe cor-de-rosa, Cinthia Kriemler, Patuá

O amor das sombras, Ronaldo Correia de Brito, Alfaguara

SEMIFINALISTAS OCEANOS 2016 — CRÔNICA

Na dobra do dia, Marcelo Moutinho, Rocco

FONTE http://saopauloreview.com.br/premio-oceanos-divulga-semifinalistas/

RECOMEÇO

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Claudio Sousa Pereira

E depois de marejado
               os olhos
respirar
respirar profundamente
expandindo o peito
desarqueando os ombros
               e lentamente
erguer o cenho
— na confiança do porvir —
desajoelhar
levantar
                   e seguir.

 

***

SOBRE O AUTOR, diz o poeta JOÃO FILHO*: Claudio Sousa Pereira pertence à linhagem poético-espiritual do chamado neossimbolismo brasileiro. E espiritual diz tudo sobre o fazer literário desse jovem poeta, que alia uma inteligência sensível, o rigor formal, a contemplação filosófica e amorosa-metafísica do mundo além da musicalidade do verso. Das formas fixas escolhidas por ele a mais cultivada é o soneto. Porém, ao trabalhar a terça rima em poemas de fôlegos mais longos — “O caminhante” e “O sobrevivente”, para ficarmos em dois exemplos — Claudio Sousa Pereira realiza-se de modo exemplar, demonstrando capacidade narrativa-reflexiva e dramática. Consciente de sua faina poética, ele sabe o risco que corre ao dar às suas composições um tom passadista, sem, com isso, incorrer em anacronismos. Com paciência e lucidez Claudio Sousa Pereira prepara o seu primeiro single: Sentida música.

*João Filho é também. Publicou “Encarniçado” (2004), Três Sibilas (2008) “Ao longo da linha amarela” (2009), A Dimensão Necessária (2014), premiado em 2015 pela Biblioteca Nacional como o melhor livro de poemas do Brasil, “Dicionário Amoroso de Salvador” (2014). Participou de várias antologias no Brasil e no exterior, entre elas “Travessias Singulares – Pais e filhos” (2008) e “Geração Zero Zero: fricções em rede” (2011).

O OUTRO MENINO GRAPIÚNA

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De Wladimir Saldanha para Emmanuel Santiago

EMMANUELSANTIAGO quadro

Não fui do que cortasse a cana em talo:
do pai que tocaiaram, coronel.
Não me tirou do chão, lavado em sangue,
se a égua é que morreu – nem ele ou eu.

Do pai que tocaiaram, coronel,
o ínsito jagunço, por matá-lo,
mirou repetição, e o cavalo,
o longe galopou, mas outro – o seu.

O tal da cana foi quase em Sequeiro
do Espinho, quando ainda era Itabuna;
e se diz não nasceu em Pirangi

- que a viu nascer -, tudo isso eu também vi:
o arco do céu, o sangue, o pai em suma.
Tocaia, coronel: eu não nasci.

***

Soneto da p. 64 do livro de poemas CACAU INVENTADO (Mondrongo, 2015), de Wladimir Saldanha. Emmanuel Santiago é autor do livro de poemas PAVÃO BIZARRO (Patuá, 2014).

***

poeta-Wladimir-SaldanhaWladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor, dentre outras obras, de AS CULPAS DO POEMA (Editora Scortecci, 2012, vencedor do X Prêmio Literário Asabeça); DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI (contos, inédito – menção do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012) e mais dois livros de poemas, ambos lançados pela Editora 7Letras: LUME CARDUME CHAMA (2013) e CULPE O VENTO (2014). Em 2015 nos presenteou com mais um livro de poemas: CACAU INVENTADO (Editora Mondrongo).

MARTIM-PESCADOR

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Wladimir Saldanha*

MARTIM-PESCADOR

Assim o submerso e o rasante.
Ambas: a esquivança e a rapina.
E tanto barbatanas como asas.
Nem navio, nem avião: os dois

num só. Queríamos o Martim-
pescador, ou o peixe que ora sobe
em sua posse; sua pose, porém
igualmente preteri-la, sim:

a desnecessidade dela… Queríamos
o Pégaso, queríamos a Hidra, queríamos
o Sonho: temos uma outra mão.

No mundo, a alguém que for
Martim, a algum pescador,
Faltará um traço de união.

***
Soneto do livro LUME CARDUME CHAMA (Editora 7Letras, 2013), p.38.

***

poeta-Wladimir-Saldanha*Wladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor, dentre outras obras, de AS CULPAS DO POEMA (Editora Scortecci, 2012, vencedor do X Prêmio Literário Asabeça); DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI (contos, inédito – menção do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012) e mais dois livros de poemas, ambos lançados pela Editora 7Letras: LUME CARDUME CHAMA (2013) e CULPE O VENTO (2014). Em 2015 nos presenteou com mais um livro de poemas: CACAU INVENTADO (Editora Mondrongo).

 

MONDRONGO E PATUÁ

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Emmanuel Santiago e João Filho

AMIGOS LEITORES, recomendo a matéria “Faça, divulgue e venda você mesmo”, escrita por Omar Godoy para o Jornal da Biblioteca Pública do Paraná. Na matéria, duas editoras especiais, a Mondrongo e a Patuá, ambas, respectivamente, responsáveis pela publicação de dois importantes livros de poemas em 2015: A DIMENSÃO NECESSÁRIA, do poeta baiano João Filho e PAVÃO BIZARRO, do poeta mineiro e paulista por escolha, Emmanuel Santiago. Eis alguns trechos:

Recorrer a editais e leis de incentivo, no entanto, não é uma prática comum entre as microeditoras. (…) há quem repudie totalmente a ideia, como o dono da editora Mondrongo, de Itabuna (BA), Gustavo Felicíssimo, 45 anos. “Sou produtor cultural, minha especialidade é a adequação de projetos voltados para as leis de incentivo. Mesmo assim, desisti de participar de editais há três anos”, revela. 

Ele vê uma “movimentação maléfica” em torno desses recursos, e lamenta que parte do cenário literário dependa deles para existir. “Estamos vendo o surgimento de ‘editoras de editais’ e até de ‘escritores de editais’. Isso é muito pobre, além de comprometer o futuro da literatura”, diz. Na ativa desde 2011, a Mondrongo foi concebida para ser um braço editorial do Teatro Popular de Ilhéus, uma das instituições culturais mais conhecidas da Bahia. Há três anos, desvinculou-se do grupo e hoje é conduzida apenas por Felicíssimo, que prioriza a literatura nordestina acima de tudo.

“Literatura não se faz de cima para baixo. Raramente um autor extrapola os limites de sua região. Não tenho ilusões quanto a isso”, justifica, ressaltando que 70% do faturamento da empresa vem justamente de eventos de lançamento realizados na região sul do estado. No final do ano passado, ele viu o nome da Mondrongo entrar definitivamente no mapa literário nacional após a premiação de dois títulos da editora. A dimensão necessária, do poeta João Filho, venceu o Prêmio Biblioteca Nacional. E Canção de ninar estátuas, de Luiz Gilberto de Barros, foi eleito o melhor livro de contos pela União Brasileira dos Escritores.

(…)

a paulista Patuá já é uma das principais referências do cenário “micro”. Nada mal para uma empresa fundada há pouco mais de cinco anos, com um investimento modesto de R$ 4 mil. “Montei a editora com três objetivos em mente: nunca cobrar do escritor, abrir espaço para novos talentos e entregar produtos bonitos, de boa qualidade gráfica”, conta Eduardo Lacerda, dono e “faz tudo” do empreendimento. 

Depois de passar um ano inteiro apenas pesquisando processos e o mercado, Lacerda se apresentou aos leitores com uma proposta ousada para o cenário independente. A Patuá lança cerca de 10 títulos por mês, com tiragem média de 150 exemplares, que são vendidos na internet e em eventos de lançamento Brasil afora. “A loja virtual representa uma boa parte do faturamento, mas eu dependo muito dos lançamentos para fechar as contas”, diz o editor, que já acumula 350 títulos publicados. Boa parte desse catálogo é composta por obras de autores ascendentes, como Paula Fábrio, Elisa Andrade Buzzo, Guilherme Gontijo Flores e Chico Lopes.

A importância dos eventos para a Patuá é tão grande que Lacerda decidiu abrir um misto de bar, café e livraria, o Patuscada. “Se tenho prejuízo com um livro, posso compensar na venda de bebida. No fim, as coisas sempre acabam se equilibrando”, explica. Seu próximo plano é montar uma espécie de hospedagem no local, para abrigar escritores de passagem por São Paulo. “Penso em cobrar apenas uma taxa simbólica. Ou que esses autores, em vez de pagarem, ministrem cursos gratuitos dentro do próprio espaço.”

(…)

Questionados sobre os planos de expansão de seus negócios, os editores procurados pelo Cândido são enfáticos: a meta é se consolidar no mercado, mas o crescimento deve acontecer de forma sustentável e, acima de tudo, independente. “Existe uma ideologia por trás do que eu faço, não sou só um empreendedor”, garante Gustavo Felicíssimo, da Mondrongo.

FONTE http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1082

MINHA PALAVRA

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João Filho*

RETRATO ÁLLEX LEILLA

Se lugar de nascimento é destino, ao nascermos na mesma cidade, parece que estávamos amorosamente destinados um ao outro. Mais: a música do nosso primeiro cenário é um desenho melódico de duas ruas de nossa infância – Francisco Magalhães e Castro Alves; esta é travessa daquela. Alessandra é três anos mais velha, passou parte de sua meninice na Francisco Magalhães. Minha primeira lembrança de estar no mundo foi na Castro Alves. No semiárido do médio São Francisco, naquela cidade do interior da Bahia. Costumo dizer que houve uma canção das ruas antes de nos encontrarmos.

E nos encontramos algumas décadas depois. Mais precisamente numa noite de abril, de 2006. Um sábado. Sim, me lembro; um amor assim traz em sua túnica fios de eternidade. Alessandra é uma presença. Se ela não estiver por perto, o mundo fica um pouco mais errado.

Quis captá-la através de versos. Vagueei em torno do objeto sem conseguir capturá-lo. Foram e são várias tentativas de poemas. É o sorriso? E que lume despertando em mim o menino mais antigo. É um jeito de olhar que só eu sei? E que acolhimento para as minhas dores e indecisões. É aquele tom de voz que me faz gargalhar? A luz do rosto confirmando a vida? O corpo refugiando o outro? Quando a mulher que amamos se entrega… Ah, meu caro, se não sabe, procure adivinhar. O gozo do corpo é também um tipo de milagre.

Nos desentendemos? Claro. Brigamos? É óbvio. Embora poucas, essas desavenças são uma angústia para mim. Verdadeiro desamparo. Não consigo me apaziguar se não retornar à velha harmonia. Aquela comunhão silenciosa da presença. O fato incontornável é amar Alessandra inteiramente. Não importam circunstâncias ou acontecimentos. 

Em 1997, eu estava no lançamento de Urbanos, seu primeiro livro, de contos, vencedor de prêmio. Sou fã antes de nos conhecermos pessoalmente, porque Alessandra foi meu primeiro modelo literário. Um tipo de norte que eu acompanhava, de longe, bem longe, Bom Jesus da Lapa. Lá, um amigo me emprestou seu segundo livro de contos – Obscuros. Seu primeiro romance – Henrique – li sofregamente; quando ela esteve na cidade para o lançamento, eu não tive condições de comparecer, mas pedi à minha ex-mulher que comprasse e pedisse um autógrafo à autora. Acompanhei entrevistas, textos em jornais, de longe mapeava seus passos. Na foto numa matéria de jornal, vi quando ela cortou o cabelo curtinho. A força, a coragem, a beleza de sua escrita, sua postura diante da arte literária sempre foi um exemplo a ser seguido. As poucas vezes que nos deparamos antes do Encontro (com maiúscula porque foi evento de altíssima gravidade), eu a olhava admirado e besta. Uma vez, na década de 1990, numa palestra na biblioteca central da UFBA, eu fui só com o intuito de vê-la. Sentei-me num lugar estratégico e a fiquei procurando. Soube, também através de jornais, quando ela foi fazer o doutorado em Belo Horizonte. Nos outros livros, já estávamos juntos, lemos na cama o original de O sol que a chuva apagou; gritamos em uníssono ao sabermos do prêmio conquistado por seu romance Primavera nos ossos. Quando ela ganhou um prêmio por seu conto “Felicidade não se conta”, que está em Chuva secreta, rimos em parceria de uma foto que ela teve que tirar segurando um cheque gigante, tipo Porta da Esperança, de Sílvio Santos.

Uma vez, já morando juntos, eu escrevendo no micro, e como sempre, absorvido feito um lunático, ela me disse: “– Está trabalhando, meu amor?” Entrei em outra dimensão. Ah, meu caro, você pode achar isso excessivo, que exagero, tempestade numa gota, mas ninguém nunca havia levado em consideração que aquela entrega à escrita fosse um trabalho. E a escrita, para dizer com Drummond, é toda a minha vida que joguei. Disfarcei uma lágrima, e respondi, numa felicidade imensa, que sim, estava trabalhando. Ela me ajudou a aceitar o poeta que eu sou.  

Num fevereiro, dia do meu aniversário, ela combinou com nosso amigo Kiko Lisboa, e este, com a cara mais lavada, me pediu, à noite, para ir com ele pegar um computador. Onde? Nordeste de Amaralina. Fazer o quê? Fui. Mas fui a contragosto. Kiko, lapense ele também, possui esses rompantes, daí eu não ter estranhado tanto. Logo no dia dos meus anos? Ele me segurou por lá. Na volta, ao entrar em casa – uma festa surpresa para mim. Pense num contentamento? Pensou? Foi maior. Sim, adoro comemorar aniversário.

Quando descubro um poeta que eu não conhecia, displicentemente deixo o livro em algum lugar visível da casa para que ela pegue e leia. Torço para que goste dos poetas que admiro. Faço de conta que não estou interessado, mas basta ela falar que minha atenção se concentra inteira em suas impressões críticas sobre o livro em questão.  

Ah, meu caro, você não faz ideia da alegria que me tomou ao perceber que ela percebia o que eu percebera no universo da literatura. Não tentarei explicar, mas… Ao ler determinado autor, ela exclama: “– Ele sabe!” Como se diz hoje: entendedores entenderão. Conhece aquele instante que parece que o tempo foi suspendido, e o véu da vida foi levantado e as coisas se tornam mais reais? Se não conhece, deveria. Pois é. Quando aconteceu, percebemos isso um no outro.

Nas alegrias profundas ou decepções tremendas, Alessandra é sempre a primeira pessoa que me vem à cabeça. Sinto necessidade de dividir com ela o que acabo sabendo. Por isso, meu caro, cuidado ao me contar segredos. É contar para os dois.

Alessandra - João Filho

Em inúmeros momentos, nesses dez anos de convivência, me pego novamente apaixonado. Até hoje me espanto e digo cá com meus botões joãoninos: “– Caramba! Estou casado com Állex Leilla.” É feito as manhãs: nascem todos os dias e são sempre originais. Apesar da sentença de mestre Bandeira no poema “Arte de amar”, tenho a nítida sensação de que aquela melodia das ruas era e é uma melodia de almas.  

Alessandra é minha palavra.

*** 

Fontehttp://voosempouso.blogspot.com.br/

*João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA) em 1975. Escritor e poeta laureado com o PRÊMIO BIBLIOTECA NACIONAL em 2015 (categoria poesia) com a obra A dimensão necessária (Mondrongo, 2014), participou de algumas antologias, dentre elas: Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña (Emecé 2007, Argentina); Travessias singulares – Pais e filhos (Casarão do Verbo, 2008); Geração Zero Zero, fricções em rede (Língua Geral, 2011); Popcorn unterm Zuckerhut (Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha). Publicou Encarniçado, contos (Baleia, 2004); Ao longo da linha amarela, contos (P55, 2009); Dicionário amoroso de Salvador, crônicas (Casarão do Verbo, 2014).

VÍRGULA

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VÍRGULA

És uma foice?
Morte ou comuna?
És uma lágrima
e feres, verruma.

Ó scarpin
de ponta-cabeça!
Cílio postiço,
fivela, sevícia…

Corta esse fôlego
mesmo na dor;
talha esse leite:

sê, culinária,
a gota cítrica!
Céu, inferno, vírgula.

Fonte: http://wladimirsaldanha.blogspot.com.br/ 

poeta-Wladimir-SaldanhaWladimir Saldanha nasceu em 1977, Salvador, cidade onde reside. Poeta e contista, é autor dos seguintes livros de poemas: LUME CARDUME CHAMA (7Letras, 2013), CULPE O VENTO (7Letras, 2014) e CACAU INVENTADO (Mondrongo, 2015).

A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA

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Claudio Sousa Pereira*

Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

Um dos representativos autores da Geração 60 na literatura brasileira, pela vertente de poesia, o poeta mineiro-brasiliense Anderson Braga Horta (1934) ofereceu mais um importante volume de sua significativa obra. O livro, intitulado Signo: antologia metapoética (Brasília, Thesaurus, 2010), reúne extensivamente vários poemas que contenham como objeto poético a própria poesia. Na compilação dos textos, foram selecionadas peças cuja referência metapoética enquanto presença passiva (poesia como leitmotiv) ou ativa (mais entrelaçada ao próprio fazer poético), como um receituário ou filosofante da poesia em si.

O metapoema é uma das grandes ocupações do fazer poético na modernidade: possui como objeto de percepção versar sobre o objeto poético, mesmo variando a abordagem sob uma perspectiva parcial ou total. Difícil é não encontrar algum texto ou um poema, seja na literatura nacional seja na literatura estrangeira, algo que não se refira ao fenômeno da metapoesia. Verifica-se, porém, que diversas vezes tal procedimento transpareceu-se em uma espécie de falta de assunto crônico, mesmo constituído num recurso por demais incensado por teóricos e ensaístas, resultando inúmeras vezes em mero esteticismo. Contudo é tomado como assunto incontornável por parte de poetas e intelectuais no decorrer de todo século XX.

Felizmente isso pouco ocorre com a poesia de Anderson Braga Horta: dentre uma produção poética profícua e na maior parte das vezes bem realizada, Anderson se insere através da reflexão aguda, sobretudo pela verdadeira investigação sobre objeto poético. E sem nenhum favor, Anderson, autor de Signo, participa altivamente nesse grande diálogo de todos os tempos, da função (ou não) do poeta e da poética na produção artística. Nos poemas inseridos em Signo, desenvolve-se, entre outros, a reflexão e a emoção nominalizada através dos recursos e alcance da poesia. Cumpre destacar que a inquietação metapoética de Anderson Braga Horta se segue desde a iniciação literária deste, em 1950. O mesmo sentimento permaneceu ao decorrer de sua vida literária, fator latente durante toda a atividade produtiva.

 

Signo - Antologia Metapoética

Signo – Antologia Metapoética

 

Os poemas em Signo prosseguem dispostos de forma cronológica, em peças produzidas entre os 16 até os 74 anos de idade, ou seja, quase sessenta anos de longeva produção literária. O autor divide se divide em quatro partes: de fato há quatro ciclos de produção: a primeira, que vai de 1950-55, com a produção inicial mais ligada a um talhe tradicional e num tom passadista, mas sem prejuízo nas composições, sendo que nesse ciclo incluem-se os sonetos com as chaves de Guilherme de Almeida — compostos em 1960 — e outras peças esparsas ao decorrer da trajetória literária. O segundo ciclo, 1956-1981, (inclui-se 1987, isolado) contém os poemas da maturidade e são, em grande parte dos casos, de notório valor literário, com poemas inseridos nos volumes Altiplano & Outros poemas (1971), Marvário, (1976) Incomunicação (1977), Cronóscópio (1983) e O Pássaro no Aquário (1990). O terceiro ciclo é o que compreende a partir de 1993-presente, numa produção vincadamente mais esparsa e circunstancial, porém, sendo recorrentemente superior ao mero valor documental. O quarto ciclo são as notas e fragmentos, notadamente em prosa, que são fundamentais para a compreensão e sentido do livro, merecedores sem dúvida de um estudo em separado.

No primeiro ciclo é apresentado um Anderson Braga Horta muito jovem, não pelo bisonho da produção (que ele mesmo se afirma), mas do aparecimento, desde muito cedo, de uma linguagem poética própria, plástica e musical, mesmo que apercebesse um certo anacronismo e uma gratuidade de expressão na fatura de alguns poemas. O autor desde o início soube manejar prioritariamente o verso metrificado, assim como o assenhoramento dos versos decassílabos e alexandrinos franceses. Nesse primeiro ciclo predominam os sonetos e poemas, em peças já significativas, tais como “Desilusão”, “Prece”, “Anteprimavera”, “Ideal” e “Porta”. Outras dois poemas se destacam: os sonetos “Cigarra” e “O poeta e a vida”. O primeiro, inserido em Soneto Antigo (2009) me fez lembrar o lirismo crepuscular do hoje esquecido Olegário Mariano (1889-1958), poeta neoparnasiano, conhecido como o “poeta das cigarras”. Já o soneto seguinte, a referência exterior à poesia figura-se bem exposta:

O POETA E A VIDA

“A alma galopa no corcel da vida,
em peregrinação áspera e dura.
Se alguma vez colhe uma rosa pura,
de toda hora é a chaga dolorida

de um espinho, de um seixo. Ah! Que na lida
deste viver uma canção não dura!
Logo do tempo a trágica urdidura
Vai deparar-lhe a dor, fera dormida.”

Assim falou desiludidamente
o sábio. Mas o poeta, alma risonha,
a plenitude da beleza sente:

arranca ao fado a máscara tristonha,
e entre os vaivéns da sorte oscila ardente…
e sofre e chora, sim… mas canta e sonha!

       (HORTA, 2010, p.18)

Cumpre dizer que Anderson Braga Horta continuou a compor sonetos, em sua maior parte em bom nível, modalidade lírica presente em vários momentos de Signos. A segunda parte (ou ciclo) aparece a produção metapoética propriamente dita: surgem numerosos poemas, aos quais podemos citar, pelo menos de nome, alguns: “Esoterismo”, “Incomunicações”, “Babélica”, “Palavra”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Outra experiência bem arquitetada de metapoema, utilizando o gênero característico: trata-se de “Telex”. Seguramente nas melhores produções do segmento, incluído no ótimo livro de estreia, Altiplano & Outros Poemas, inclui-se o poema intitulado “Apoese”. Escrito em 1963, possui um parentesco com o receituário Drummondiano de “A Procura da Poesia”, no aspecto da gênese e emprego do idioma poético. Neste poema, exemplifica-se algo que é inerente à concepção poética do autor: são as possibilidades potenciais de um poema total, das combinações dentre todas as palavras para além das reservas combinativas. Nesse aspecto, insere-se o excelente poema transcrito abaixo:

APOESE

Mudas, incriadas,
jazem no possível
todas as palavras.
Nesse limbo inscrevem-se
invisivelmente
todos os poemas
ditos, por dizer,
mais os indizíveis.
Nesse limbo se amam,
bicam-se as palavras,
numa intimidade
por nós mal sonhada.
Relações repousam
insolicitadas,
frases adormecem
de desinvocadas,
e afinal se cruzam,
crispam-se, eriçadas
na ânsia de uma língua
— boca, pena, gesto.
Nesse inesgotável
lago das palavras,
onde tudo encontra
seu signo prateado,
mergulhou o Homem
e pescou sofismas,
teses, xingamentos,
jogos, alguns poemas.
Infinito é o Sonho
que, irrealizado,
dorme em apoese
nesse obscuro lago.

       (HORTA, 2010, p.54-55)

O mesmo pode-se dizer de “A Máquina de escrever”, escrito em 1957 e integrante do terceiro livro publicado pelo poeta, Incomunicação, de 1977. No entanto, a perspectiva de criação muda, partindo do objeto intuído potencial, ou seja, a natureza das palavras para o objeto-artefato realizador (ou afixador) da escrita/poema. No poema que segue é sugerida a reserva de criação — anterior ao processo poético por si — num quase enigma sem decifrador, um potencial que é dependente de quem venha transformá-lo em poema, sendo portador de todas as suas possibilidades, ou seja, contentor do poético pleno:

A MÁQUINA DE ESCREVER

Ei-la dormindo
a um canto
sonhos alfabéticos.
Jaz encapuçada,
talvez com vergonha
do amor não inscrito.
Humilde no ventre
da escrivaninha,
ciosa
de segredos terríveis,
guarda nas teclas dormentes
o poema total.
O poema que ninguém.
A aranha do tempo
trançará sobre ela a sua teia.
Que um dia alguém desfará
sem acordar o poema.
Silêncio!
dormindo a um canto
sonhos
Esfinge
sem Édipo.

       (HORTA, 2010, p.34)

Através dos poemas apresentados, podemos afirmar algo sobre a prática metapoética de Anderson Braga Horta. Incluídos em “Notas e Fragmentos”, o autor explicita intuitivamente sobre o seu conceito de poesia, dividindo em três momentos distintos: O primeiro momento é visto como Potência, percepção do fenômeno modulável em poético absoluto; o segundo momento é descrito como Processo, transformação desse fenômeno em algo fixado, apreendido; e o terceiro, Objeto, o artefato propriamente dito, portanto, o poema na sua afeição plena. Para o autor, o poético absoluto captado e modulado pelo poeta não é um momento fraco e provisório, cujo produto é a forma concreta do poema, mas sendo justamente o contrário, portanto, transformado, em palavras minhas, num objeto compactado por desidratação; para Horta, a inspiração poética não é essencialmente um acordo bem-sucedido entre intenção projetada e forma verbal concreta, mas em perda irreparável do poético no refratário espaço do poema.

Essa referência impregna alguns de seus poemas metapoéticos: a saber, transcritos abaixo, da seção do poema intitulado “Didática”, além de “Linguagem I”. Anderson Braga Horta realiza, de maneira prática, poemas conforme seu pensamento sobre a irrealização completa do constructo poético em si. Portanto, da apreensão do belo apenas no plano ideativo, tal como mundo platônico:

DIDÁTICA

2: Beleza

A beleza está inteira em sua busca.
Tocá-la é esfarelar em mãos grosseiras
Vênus antes etérea e, após, argila.

Assim o caçador, prendendo a caça,
foge-lhe a vida ou lhe deturpa o encanto.

Não consiste a beleza em vão detalhe
que se destaque, fruta que se colha,
coisa fungível, singular objeto
que se ponha no bolso.

Olhe-a somente,
siga-lhe espanto o luminoso rasto.
Beleza é ver. Quebrada é alcançá-la.

(HORTA, 2010, p.49)

LINGUAGEM I

A mão desenha signos no papel,
obedecendo aos impulsos
de um precário conhecer-o-mundo.

Sobre essa realidade de terceira mão
outras mãos escrevem.
E assim chegamos ao refinamento
de abstrações de abstrações.

Do lado de fora,
as coisas:
irredutíveis.

       (HORTA, 2010, p.87)

Pedro Lyra, poeta e crítico literário, autor, entre outros, de Sincretismo – A Poesia da Geração 60, obra da mais fundamental importância, ao analisar a poesia de Signo, discorda da transformação do produto como algo perdido, no qual afirma que “o objeto resultante do processo não é assim tão pobre e muitas vezes contém a poesia sim”. Cabe dizer que a concepção hortiana se mostra pelo apego a humildade do labor recompensado, mesmo que restasse apenas um traço mínimo do fenômeno poético, assim como se trata de um conceito metafísico por natureza, adicionado pela interpelação psicoativa.

Creio que processo poético, na realização de um bom poema, se faz necessário o equilíbrio dos três estados, tendo no poema o máximo possível da materialização do poético, ou seja, a suposta inspiração completa, que engendra no aparecimento de textos afundados no hermetismo — prejudicial à comunicação do poema — assim como a completa ausência do pensamento emocionalizado, ou seja, sem o apelo ao estímulo da inspiração. Na verdade, para ser sincero, se juntarmos todos os poemas escritos na história literária, a apreensão do poético completo materializado no poema — aqueles dotados da grandeza de perfeição formal, originalidade e valor de entrechoque espiritual — se reduzirá num reduzido número de casos em qualquer literatura, seja os poetas maiores e os poetas menores, nas obras mais ou menos modestas em seu valor literário.

Dotado de rara capacidade comunicativa, desde cedo Anderson Braga Horta conseguiu aquilatar sua voz poética através do completo domínio do fazer poético em todas as suas vertentes formais, produzindo uma obra de poesia (e prosa) na qual procurou interpretar a necessidade do homem na agonia posterior a acontecimentos capitais da história, homem esse inserido num século pesado e marcante como foi o século XX. Tratando de temas que vão desde a contemplação amorosa do mundo, perpassando a temática social até a comunicação da angústia humana, seu destino, passamento, erros e atitudes. Por isso, e por outros aspectos, justifica a referência de Anderson Braga Horta na esteira dos grandes poetas nacionais pós-geração de 1945, de indiscutível presença dentre os mais representativos da poesia brasileira contemporânea.

O livro Signo: Antologia metapoética, embora mais voltado para os efeitos da poesia, não prescinde de outros aspectos mencionados acima; em outras obras de Anderson Braga Horta, o leitor também poderá encontrar o mínimo essencial sobre metapoesia, como também apreciar outras abordagens assim como outros bons poemas, que por motivo de exceção não estão em Signo. Podemos mencioná-los: Fragmentos da Paixão (Massao Ohno, 2000), inclui a reedição dos sete livros iniciais do poeta além de inéditos, obra que foi ganhadora do prêmio Jabuti de 2001; a Antologia Pessoal, (Thesaurus, 2001), que inclui a seleção de poemas da obra anterior assim como outros inéditos, volume para quem deseja um condensado da obra hortiana; os 50 Poemas Escolhidos do Autor (Edições Galo Branco, 2003), de menor extensão que a antologia, porém de igual relevância formativa sobre o poeta, e, por último, o Soneto Antigo, de 2009, que é um compilado de uma obra anterior, Dos sonetos da Corda de sol, (Edições EGM, 1999), acrescentado de numerosos inéditos, obra essa para quem deseja conhecer a mestria de Anderson Braga Horta através de uma forma poética admirável pela longevidade — o soneto — livro do qual são apresentados 150 poemas, além de uma pequena fortuna crítica ao final do volume.

BIBLIOGRAFIA

HORTA, Anderson Braga. Fragmentos da Paixão. São Paulo: Massao Ohno, 2000.
_______________. Antologia Pessoal. Brasília: Thesaurus, 2001 (Exemplar 112)
_______________. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009
_______________. Signo: Antologia Metapoética. Brasília: Thesaurus, 2010.
JUNQUEIRA, Ivan. À Sombra de Orfeu. Rio de Janeiro: Nórdica, 1984.
LYRA, Pedro. Fundamento e Construção em Anderson Braga Horta. Disponível em <http://www.revista.agulha.nom.br/pedrolyra.pdf> Acesso em 15-V-2012.
STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. São Paulo: Tempo Brasileiro, 1997.

Claudio Sousa Pereira é poeta, ensaísta e professor de literatura.

Claudio Sousa Pereira é poeta, ensaísta e professor de literatura.

A POESIA DE JOÃO FILHO À LUZ DE JOÃO CABRAL

Padrão

Emmanuel Santiago*

Dois autores em certa medida semelhantes, mas radicalmente distintos; este ensaio, em seu método comparativo, foi também a tentativa de realizar uma metáfora.

Dois autores em certa medida semelhantes, mas radicalmente distintos; este ensaio, em seu método comparativo, foi também a tentativa de realizar uma metáfora (Emmanuel Santiago).

A dimensão necessária[1], livro do poeta baiano João Filho, publicado em 2014, destaca-se no panorama atual da poesia brasileira sobretudo por duas características: a utilização metódica de formas fixas e um apelo ao transcendente que, embora assuma caráter religioso (cristão, mais especificamente), não se restringe a essa temática nem resvala no proselitismo. Além da mão de mestre que se percebe por detrás dos elementos técnico-formais, chama a atenção a qualidade imagética dos poemas, que é o que pretendo investigar, estabelecendo um contraponto com a obra de João Cabral de Melo Neto. A princípio, pode parecer descabido comparar um poeta quase iniciante (A dimensão necessária é seu segundo livro, precedido por Três sibilas, de 2008) a um poeta do quilate de Cabral, com certeza um dos maiores nomes de nossa literatura. Porém, não só a poesia de João Filho se sustenta diante da comparação (pois trata-se sem dúvidas de um poeta de estro), como ajuda a distinguir aspectos relevantes da obra do autor de A educação pela pedra. Sem mais delongas, comecemos.

Em “Salvador, 1996-2013”, segundo poema de A dimensão necessária, o eu lírico convida a contemplar a capital baiana desde o alto:

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico: (p. 15)

A referência que salta aos olhos nesse poema é o João Cabral dos panoramas urbanos de livros como Paisagens com figuras (1955) e Quaderna (1959), a despeito do uso da primeira pessoa do singular (“digosalitre”) e da alusão musical (“Aqui se canta um velho cântico”), uma vez que a poesia cabralina caracteriza-se por sua impessoalidade e pela declarada aversão à música. Em “Pregão turístico do Recife”[2], de Paisagens com figuras (João Cabral), temos:

Na cidade propriamente
velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários
de cada lado de um rio.

Com os sobrados podeis
aprender lição madura:
um certo equilíbrio leve,
na escrita, na arquitetura. (MN, 1955, p. 147)

A proximidade entre os dois poetas não se dá apenas na escolha do tema, pois, além da ênfase nos aspectos imagéticos (fanopeia) comum a ambos, por vezes é possível flagrar certa dicção cabralina em João Filho, pelo tom analítico de algumas passagens. De fato, a poesia de João Cabral parece ser o modelo formal dos seis primeiros poemas da seção “Luz alheia”, como atestam a opção pela quadra (uma constante na poesia do pernambucano), o uso das rimas toantes como eixo rítmico da composição e a escolha do verso octossílabo, o mais característico da obra cabralina a partir de determinado ponto[3] — embora o octossílabo de João Filho seja regular, com acento na quarta sílaba poética, o que contraria a lição do mestre[4]. Dos seis poemas mencionados, o único que escapa a esse esquema é o primeiro, “Nitidez submersa”, escrito em versos de sete sílabas (uma variação, no entanto, prevista na poesia cabralina).

Outra característica que aproxima o João baiano do pernambucano é a insistência na imagem da luz e seus derivados, como manhã, claridade etc. Nas duas últimas estrofes de “Salvador, 1996-2013”, lemos:

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

Nesta passagem, o torneio dialético é tipicamente cabralino (“Tudo externado? Não o âmago”), em que associações imagéticas anteriores são desmentidas ou relativizadas por novas metáforas e símiles, como percebemos na seguinte passagem de “Estudos de uma bailadora andaluza”, de João Cabral:

Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

(…)

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra, (grifo meu — MN, 1959, pp. 219-20)

No poema de João Filho, delineia-se semelhante contraponto de perspectivas, no qual a voz lírica desautoriza o senso comum (no poema de Cabral, expresso por um impessoal “dir-se-ia”; em “Salvador 1996, 2013”: “Disseram gorda [...]/ digo salitre [...]”). Mas eu falava da reiteração da imagem da luz em A dimensão necessária, como na seguinte estrofe:

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

Qualquer leitor familiarizado com a obra de João Cabral de Melo Neto reconhece a verdadeira obsessão do poeta pernambucano por imagens solares. Novamente, em “Pregão turístico do Recife”:

Do mar podeis extrair,
do mar deste litoral,
um fio de luz precisa,
matemática ou metal. (MN, 1955, p. 147)

Porém, talvez a imagem mais conhecida da luz na obra de João Cabral esteja em “Tecendo a manhã”, de A educação pela pedra, no qual se fala da “luz balão” da alvorada elevando-se como “toldo de um tecido tão aéreo” (Idem, 1965, p. 345) — no primeiro poema de “Pequenos tesouros portáteis”, série que tem a luz como tema, João Filho descreve de maneira parecida o dia que nasce: “Lençol diáfano/ sobre a cidade” (p. 95). A luz, na poesia cabralina, assume um sentido metafórico, fundado na relação entre luz e razão estabelecida desde a Antiguidade (em Platão, por exemplo), mas que, a partir do Iluminismo — no chamado “Século das Luzes” —, adquire sua feição moderna. É o que vemos em “Fábula de um arquiteto”, em que a função da arquitetura seria deixar o espaço aberto à circulação de “ar luz razão certa” (MN, 1965, p. 346). Por sua vez, em “O engenheiro” (do livro homônimo), encontramos:

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre. (Idem, 1945, pp. 69-70)

Temos aqui a imagem da luz-razão que dissipa as sombras do desconhecido, dando ao homem acesso à realidade, para além de qualquer preconceito, ilusão e engano. É a luz que desvela, que suspende o véu da segunda natureza (da ideologia, em termos marxistas) que encobre a face verdadeira das coisas. Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, demonstra como a metáfora do véu — que originalmente, no discurso religioso, remetia-se à natureza ilusória do mundo sensível, que ocultaria a essência imutável das coisas — foi apropriada, na Idade Moderna, para tratar de uma ruptura com a tradição e com as práticas sociais estabelecidas, deslocando para a realidade concreta e contemporânea o domínio da verdade: “Agora o falso universo é visto como o passado histórico, um mundo que perdemos (ou estamos a ponto de perder), enquanto o universo verdadeiro consiste no mundo físico e social que existe para nós, aqui e agora (ou que está a ponto de existir)[5]”. A poesia de João Cabral movimenta-se nesse domínio de referências, manifestando um caráter abertamente materialista, no qual a razão é a luz que disseca a realidade, despindo-a de qualquer ilusão metafísica. Em “O sol em Pernambuco”, lê-se: “dá-se que hoje dói na vista tanta luz:/ ela revela real o real, impõe filtros” (grifo meu — MN, 1965, p. 357). Em “Fábula de Anfion”:

O sol do deserto
não choca os velhos
ovos do mistério. (Idem, 1947, p. 88)

Diverso é o significado que João Filho atribui à luz em sua poesia. Em “Manhã meditada”, de nítida matriz formal cabralina, temos a crítica a uma visão materialista que, diante do milagre diário do amanhecer, nada mais enxerga que um simples “capricho” da natureza:

(…)
Não a molesta [a manhã] a desmemória
e a arte ingrata que se esmera
em dissecá-la: só matéria.

Cegos de vê-la, consideram
mais um capricho o sacerdócio
de dar contorno, peso e sopro
ao que era limbo em duplo espaço: (p. 19)

A luz, em A dimensão necessária, representa o indício de uma ordem superior que rege a realidade sensível[6]; ordem mencionada em “Nitidez submersa”, poema de abertura do livro. Nele, o eu lírico entrevê na fuligem da sola de seus sapatos “a clara sustentação/ dos fios frágeis do mundo” (p. 14). A fuligem remete ao “pó do mundo” (quarta estrofe, p. 13), sendo pó metonímia recorrente na poesia de João Filho para referir-se à natureza perecível das coisas materiais e à mortalidade humana, evocando a lição bíblica do Gênesis e do Eclesiastes: “Do pó vieste, ao pó retornarás”. Através de uma existência errante, em trânsito — em trânsito = transitória, que é a própria condição do homem como ser mortal — e figurada pela fuligem no sapato, é possível vislumbrar as “grafias do diáfano” (p. 14), isto é, os vestígios de um plano maior, escritos por um Criador. A “nitidez submersa” que o poema menciona são, portanto, os sinais de um princípio ordenador inteligível em meio ao aparente caos da existência. Trata-se da luz que fecunda o mundo de sentido, como lemos no quarto poema de “Pequenos paraísos portáteis”:

(…)
mas qualquer ponto
do mundo visto

ou pressentido
é a luminosa
emanação
da pura ordem. (p. 106)

A luz física, aquela que certos olhos enxergam como “só matéria”, é a manifestação sensível de outra luz, energia puramente espiritual. Estou me referindo à “Luz Invisível” (“Light Invisible”), que aparece na última seção de Choruses fromThe Rock”, de T.S. Eliot[7], poeta do qual João Filho aproxima-se pelo teor metafísico e religioso de sua poesia. Essa Luz, como se pode deduzir, é aquela que encontramos no texto de outro João, o evangelista, nas palavras de Jesus: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue, de modo nenhum andará nas trevas, pelo contrário terá a luz da vida” (Jo 9:5). Assim, em A dimensão necessária, a luz como metáfora retoma seu sentido religioso primeiro, afastando-se da concepção moderna expressa na poesia de João Cabral — a da poesia como dissecação da realidade empírica, como desvelamento — para expressar uma concepção da luz como fonte de alumbramento espiritual, de revelação (com toda a conotação teológica que tal termo carrega no cristianismo).

No entanto, mais do que simplesmente diferenciar a visão de mundo dos autores, limitando-se aos aspectos ideológicos de suas obras, essas duas concepções acerca da luz expressam diferentes maneiras de considerar a relação entre a poesia e o real. Em primeiro lugar, deve-se levar em conta que, tanto para Cabral quanto para João Filho, a poesia — ou a subjetividade do poeta — é lâmpada, e não espelho, para empregarmos as metáforas críticas que M. H. Abrams identifica na tradição de estudos literários até o Romantismo[8]. Segundo Abrams, predomina entre os românticos a ideia de que a obra literária não é apenas um reflexo do mundo tal qual nós o percebemos (poesia como espelho), mas que a imaginação poética é capaz de iluminar aspectos não evidentes da realidade, ultrapassando o âmbito das aparências e atingindo seu núcleo verdadeiro (poesia como lâmpada). No entanto, os dois poetas aqui confrontados divergem no que se refere ao modo de conceber essa realidade, o que tem implicações na construção das imagens nos poemas.

Como já disse, tanto a poesia do João pernambucano quanto a do João baiano possuem uma forte ênfase visual. Além disso, em ambos há uma procura de associações que surpreendam o leitor, um gosto pela trouvaille, afastando-os assim do domínio das figuras de linguagem chanceladas pela tradição. Em João Cabral, no entanto, os procedimentos associativos — como símiles, metonímias e metáforas — beiram muitas vezes o insólito, pois o poeta pernambucano constrói relações de contiguidade a partir de qualidades puramente circunstanciais em seus objetos. Um exemplo disso é o poema “Estudo para uma bailadora andaluza”, em que uma dançarina de flamenco é comparada ao fogo; a uma espécie de “centaura”, na qual se unem dança (montaria) e dançarina (amazona); ao ato de telegrafar; a uma árvore; a um livro de capa e contracapa idênticas, que se desdobra em duas estátuas; a uma espiga de milho. Fiquemos com a última comparação:

Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.

Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.

Não só da vegetação
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita)

mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia. (MN, 1959, p. 224)

No autor de Morte e vida Severina, as associações imagéticas são da ordem do artifício que se assume como tal, ressaltando seu caráter arbitrário e construtivista. Relacionando seres irredutíveis entre si a qualquer vínculo de identidade, João Cabral, por uma espécie de dialética das imagens que resulta em choque, espera desvendar aspectos insuspeitados de seus objetos. Tal procedimento, que remonta ao Barroco e aos poetas metafísicos ingleses, encontra em Baudelaire seu principal sistematizador e difusor na poesia moderna; basta lembrar os versos de “Le couvercle” em que o céu é descrito como a tampa de uma enorme marmita que confina a humanidade (“Le Ciel! Courvecle noir de la grande marmite/ Oú bout l’imperceptibile et vaste Humanité”)[9]. Interessado no modo como, na poesia baudelairiana, são abolidos os limites entre o estilo elevado e o baixo — resultando num tratamento sério e sublime de temas que, até então, mereciam apenas abordagem burlesca —, Erich Auerbach afirma: “Nele [em Baudelaire], pela primeira vez encontramos completamente desenvolvidas estas combinações surpreendentes e aparentemente incoerentes (…). O poder visionário de tais combinações exerceu uma influência crucial na poesia posterior; parecem ser a mais autêntica expressão tanto da anarquia interior da época quanto de uma nova ordem encoberta que ainda começava a surgir”[10].

Walter Benjamin, em seus estudos sobre Baudelaire, deixou apontamentos inconclusos sobre o que seria uma “visão alegórica” na obra do autor de Les fleurs du mal[11]. Partindo do conceito de alegoria na literatura barroca, sobretudo na tragédia alemã do período, Benjamin nos mostra que, enquanto no símbolo(como o entendia a filosofia romântica), teríamos a manifestação de um princípio transcendente (a Ideia) numa aparição sensível, na alegoria — que se relaciona a uma noção da história como Queda, como exílio da pátria metafísica —, as imagens remetem a um significado superior que as ultrapassa e o qual elas comunicam apenas de maneira aproximada, arbitrária e imperfeita[12]. O que difere a alegoria barroca da alegoria moderna (aquela encontrada em Baudelaire, por exemplo) é o fato de que, enquanto para o homem barroco a possibilidade de uma imagem inteligível do mundo ainda fazia parte de seu horizonte de expectativa — mesmo que projetada na transcendência —, na modernidade, tal possibilidade se dissipa. Não se trata do descrédito das religiões como sistemas de ideias, ocasionado pela consolidação da ciência moderna, mas da crise da experiência em pleno desenvolvimento do capitalismo industrial, da qual o descrédito das religiões é uma manifestação.

Segundo Benjamin, experiência é o significado que atribuímos a um acontecimento, sendo que tal significado depende de um conjunto de referências que orientam a ação e o pensamento das pessoas. A esse conjunto — socialmente constituído e passado de geração em geração — damos o nome de tradição, que pode ser definida como o acúmulo de experiências no seio de uma comunidade ou cultura[13]. A experiência, portanto, é um saber social, ou seja: um saber socialmente construído e socializável, interpessoal por natureza. Já o acontecimento destituído de qualquer significação, incomunicável, constitui-se subjetivamente como vivência[14]. Assim, é possível dizer que é a experiência que empresta sentido humano às coisas e ao mundo. Ocorre que, na Idade Moderna, principalmente a partir do século XIX, a realidade social passa a sofrer súbitas e constantes transformações, de modo que o saber tradicional, que possibilita a experiência, perde gradativamente sua validade. Como consequência, o mundo perde também inteligibilidade e as pessoas se isolam subjetivamente. Numa escala individual, não se consegue mais integrar os acontecimentos numa totalidade semântica que, para Benjamin, é a vida. Dito com outras palavras, vida é o conjunto de experiências — ligadas a um indivíduo — que se articulam instituindo uma relação inteligível entre si[15].

Podemos dizer, enfim, que a alegoria é o modo como a vivência se expressa na literatura moderna; é a forma literária que assume um mundo destituído de significado humano. Uma vez que as coisas não possuem um sentido intrínseco e não se integram numa ordem definida, é possível comparar elementos absolutamente díspares, forjando relações insólitas. É esse o olhar alegórico de Baudelaire, que lhe renderia de Brunitière o epíteto de “génie de l’impropriété”[16]. Não é por acaso que Peter Bürger busca no conceito de alegoria de Benjamin o princípio estético que rege a atitude do artista de vanguarda: “Onde o clássico, no material, reconhece e respeita o portador de um significado, o vanguardista vê tão-somente o signo vazio, ao qual ele se acha habilitado a tão-somente emprestar significado. Em conformidade com isso, o clássico trata seu material como totalidade, enquanto o vanguardista arranca o seu à totalidade da vida, isola-o, fragmenta-o”[17]. E a distinção prossegue: “O clássico produz sua obra com intenção de oferecer uma imagem viva da totalidade. (…). O vanguardista, ao contrário, junta fragmentos com a intenção de atribuição de sentido (onde o sentido pode muito bem ser a indicação de que não existe mais nenhum sentido). A obra não é mais criada como um todo orgânico, mas montada a partir de fragmentos (…)”[18].

Esse olhar alegórico preside também a criação do repertório imagético em João Cabral de Melo Neto, com suas sobreposições incongruentes de imagens, às quais a meticulosa coordenação dos aspectos formais e o tom analítico, que aponta semelhanças acidentais como se necessárias fossem, ocultam a natureza fragmentada do arranjo, dando-lhe uma rigorosa aparência de integridade. Mas, ainda assim, é impossível não perceber seu caráter de constructo, de coisa armada. No processo de desvelamento da realidade na poesia cabralina, que deseja apreender o real despido de qualquer significado que o transcenda, em seu bruto estado imanente, há um esforço de criar uma forma comunicável aos acontecimentos percebidos como vivência, de encontrar uma interlocução possível dentro do estilhaçamento da experiência no mundo contemporâneo, pois disso depende qualquer tipo de coesão social. Daí sua conjugação de construtivismo estético e engajamento político. Isso a partir de uma compreensão da imagem poética que, em seu excesso de racionalismo crítico, remonta à arbitrariedade da alegoria barroca, agora posta a descoberto. Em João Filho, ao contrário, o que parece haver é um desejo de restituir a experiência ao mundo, apelando, numa ordem social a esta irredutível, a uma ordem axiologicamente superior, que é o metafísico.

Não são poucas as imagens em A dimensão necessária que surpreendem pelo inesperado de suas associações. Um dos exemplos mais bem acabados está no poema “Pequeno oratório”, do qual destaco as duas primeiras estrofes:

Meu coração, pobre capela,
tão devedor do gesto alheio.
A débil luz de sua vela
deixa confuso este romeiro.

Não quer rezar, contudo reza,
no seu altar de tosca pedra
— a comunhão é o que pesa —
Deus não é busca nem espera. (p. 56)

Talvez retomando a visão de Agostinho de Hipona do coração humano como local onde as repercussões do Verbo divino comunicam-se aos indivíduos[19], a imagem da vela aqui, ainda que sua chama seja débil, vai ao encontro da representação da subjetividade do poeta como centro irradiador de luz para o mundo; a metáfora da lâmpada, da qual M. H. Abrams falava. Apresenta-se uma analogia entre o coração do eu lírico e uma “pobre capela”, que se estende pelas demais cinco estrofes do poema. A comparação baseia-se na ideia de que, tanto na mais singela capela — como simboliza a lâmpada do Santíssimo — quanto no coração do mais reles mortal, Deus seria uma presença perene (afinal, “Deus não é busca nem espera”). Esse paralelismo inicial desdobra-se em metáforas secundárias, como na imagem do coração “casulo d’alma” e “jardim sem calendário” (idem). Tais imagens afastam-se das de João Cabral pois procuram surpreender afinidades profundas, subterrâneas, entre as coisas. Dessa maneira, João Filho aproxima-se de Baudelaire por outro flanco: o das correspondências.

De acordo com o soneto “Correspondances”, de Baudelaire — escrito sob a influência da tradição de estudos da obra do místico Emanuel Swedenborg —, através da Natureza é possível pressentir uma dimensão em que as coisas coexistem em absoluta unidade, de tal modo que as sensações que delas se originam tornam-se intercambiáveis (“Les parfurms, les couleurs et les sons se répondent”)[20]. Já em João Filho, as grafias do diáfano encontram-se inscritas na fuligem do mundo, apontando outro nível de compreensão dos fenômenos sensíveis. Trata-se, portanto, de utilizar as imagens como portadoras de um sentido que as perpassa e que, devido aos limites da linguagem, só pode ser parcialmente comunicado por meio de outras imagens igualmente impregnadas de sentido. Se aqui não escapamos ao domínio do alegórico, esta é uma alegoria que se pretende mais próxima de sua concepção original na teologia, onde Benjamin a foi colher inicialmente, e incorporada a uma postura estética mais “clássica”, conforme Bürger a define em oposição à vanguardista. Em suma, todas as coisas se equivalem como imagens poéticas na medida em que apontam um mesmo significado fundamental e se entrelaçam numa dimensão necessária da existência — poesia Comunhão.

Na dicotomia representada pela obra dos dois “joões”, o Neto e o Filho, é possível distinguir as posições que, segundo Octavio Paz, caracterizam a poesia moderna desde o Romantismo: a analogia e a ironia. A analogia é a operação poética por meio da qual as diferenças entre os seres são redimidas numa identidade ilusória, expressando um anseio de integração de todos os âmbitos da existência, como, por exemplo, a vida e a arte; é a crença numa harmonia universal que rege o concerto das coisas existentes[21]. A ironia, por sua vez, baseia-se na consciência a respeito da irredutibilidade de cada ser e da descontinuidade da existência, que a tudo sentencia ao desaparecimento, à extinção. Trata-se de uma concepção niilista, filosoficamente falando: ou o universo, em sua diversidade, não possui um sentido que o unifique, ou então esse sentido não é apreensível[22]. Ainda segundo Paz, essas duas posturas coexistem problematicamente na obra de Baudelaire[23], como observamos na ambivalência entre spleen e ideal[24]. Arrisco dizer que a alegoria, como a vimos em Benjamin, talvez seja a faceta degradada e irônica da correspondência, forçando a analogia até seus limites, até que se rompa a ilusão de identidade. Relacionando o pensamento do teórico alemão ao do mexicano, parece lícito afirmar que tanto a analogia quanto a ironia são uma resposta ao declínio da experiência, só que, enquanto a última é a expressão da consciência e da aceitação desse declínio, a primeira representa uma nostalgia da experiência e um desejo de restaurá-la. Segundo Octavio Paz: “A poética da analogia só podia nascer numa sociedade fundada — e roída — pela crítica. Ao mundo moderno do tempo linear e suas infinitas subdivisões, ao tempo da mudança e da história, a analogia contrapõe não a impossível unidade, mas a mediação de uma metáfora. A analogia é o recurso da poesia para fazer frente à alteridade”[25].

A obra de João Filho é uma representante de poética analógica, ao passo que em João Cabral encontramos a alegoria benjaminiana, que é a analogia roída por dentro pela ironia. Nisso está fundada mais uma relevante diferença entre os dois: é notória a ojeriza que o poeta pernambucano manifestava em relação à música, tanto que, em seu poema “A palo seco”, celebra-se uma modalidade do flamenco cantada a capella justamente por se tratar de um “cante que não canta” (MN, 1959, p. 250). Por sua vez, a poesia de João Filho está cheia de “imagens musicais”, desde “Uma mulher toda música” (título de um soneto lírico-amoroso de “Luz alheia” — p. 26), ao “velho cântico” (p. 15) que ecoa sobre Salvador e que representa a atmosfera religiosa emanada de suas igrejas coloniais. Em “Capela do Hospital Santo Antônio”, o amor (caritas) irradia da referida capela como um “acorde se estendendo”, levando o eu lírico a se questionar: “quem O desfere?” (p. 17). Entretanto, um dos exemplos mais significativos dessa tendência encontra-se nos primeiros versos da sexta parte de “A fonte vertical”:

A Voz — música sem pauta — atravessa
poro e espírito, vem das planícies mais altas,

diz tudo sem uma palavra: aí começa a
significar-me inteiro da única falta.

É quando o fluxo fala e o coração ressoa
ao menor ruflo dessa Luz ou Voz. (p. 41)

A Voz, que é música, confunde-se com a Luz, cujo significado já vimos. Voz que, mesmo sem proferir uma única palavra, empresta significado à existência do eu lírico. Disso depreendemos que, se existe uma ordem regida harmoniosamente por um Criador, ela pode muito bem ser representada como música. Aliás, insistindo nas formulações de Octavio Paz, se a analogia é entendida como uma busca por ressonâncias universais, a realidade traduz-se como ritmo: “A analogia concebe o mundo como ritmo: tudo se corresponde porque tudo ritma e rima” (p. 71). Se o ritmo universal e a inteligibilidade do mundo levaram Paz a descrever a realidade sob as leis da analogia como um poema, no caso de João Filho, no qual deparamos com uma voz que não profere palavra — canto pleno, em oposição ao cante sem canto cabralino —, creio não ser uma impropriedade dizer que, em A dimensão necessária, a noção de uma regularidade da existência assume a imagem da música: não exatamente a música das esferas, mas o Verbo divino (criador do universo) que ecoa no coração dos homens num idioma que não é grego, nem latim — é puro canto.

A afinidade da poética de João Filho com a música tem raízes profundas em sua forma de enxergar o mundo e conceber a poesia, pois a ideia da metáfora como ressonância integra uma visão da ordem universal associada à musicalidade. Por outro lado, em João Cabral, cuja poesia procura defrontar a imanência e a descontinuidade do real empírico, a música, com sua regularidade encantatória, não pode ser encarada senão com desconfiança. Talvez por isso a opção de Cabral pelo metro irregular, sem cesuras, ao mesmo tempo que persiste nele a necessidade de dotar os versos de uma regularidade artificial, matemática, para que o poema não irrompa na algaravia, no puro alarido, no balbucio.

De um lado, a imagem é choque, é tensão entre o despropósito da metáfora — que enche o texto com suas arestas — e consciência geométrica (João Cabral); do outro, a imagem é ressonância, é busca de uma unidade perdida e nostalgia da Comunhão, a partir de uma lógica compositiva que valoriza a carpintaria das formas tradicionais (João Filho). Dois autores em certa medida semelhantes, mas radicalmente distintos; este ensaio, em seu método comparativo, foi também a tentativa de realizar uma metáfora.

Referências bibliográficas

ABRAMS, M. H. O espelho e a lâmpada: teoria romântica e tradição crítica. Tradução Alzira Vieira Allegro. São Paulo: Editora Unesp, 2010.

AGOSTINHO. A trindade. Tradução Augustinho Belmonte. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1994.

AUERBACH, Erich. “As flores do mal e o sublime”. In: Ensaios de literatura ocidental. Tradução Samuel Titan Jr. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2012, pp. 303-32.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Edição bilíngue. Tradução Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política — Obras escolhidas, vol. I. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

________ . Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo — Obras escolhidas, vol. III. Tradução José Carlos Martins e Hemerson Alves Batista. São Paulo: Brasiliense, 1989.

________ . Origem do drama trágico alemão. Tradução João Barreto. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. Tradução José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

ELIOT, T. S. Obra completa, volume I: poesia. Edição bilíngue. Tradução Ivan Junqueira. São Paulo: Arx, 2004.

JOÃO-FILHO. A dimensão necessária. Ilhéus: Mondrongo, 2014.

MELO-NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Tradução Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

Notas

[1] JOÃO-FILHO. A dimensão necessária. Ilhéus: Mondrongo, 2014. Todas as citações do livro referem-se a esta edição, portanto virão seguidas apenas do número da página.
[2] MELO-NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. Citações todas extraídas desta edição, de modo que serão indicadas apenas pelas iniciais MN, seguidas do ano do livro em questão e o número da página.
[3] Sobre a opção pelo verso de oito sílabas, João Cabral afirma numa entrevista concedida a Nicolás Tapia em 1993: “O verso de sete sílabas é a medida natural, é um verso muito fácil. Eu passei a metrificar a partir de certa época no metro de oito sílabas, para que não fosse fácil. Não é espontâneo e por isso me interessa. O verso de sete sílabas sem acentuação interna regular; o verso de oito precisa duma cesura. Eu pretendi fazê-lo sem cesura. (…). O que me interessa é fazer um verso de oito sílabas, mas sem cesura regular, que não tenha uma acentuação interna regular.” A entrevista pode ser lida e baixada aqui:http://www.omarrare.uerj.br/numero15/nicolastapia.html.
[4] O amigo Wladimir Saldanha me alertou para o fato de que o octossílabo de Alberto da Cunha Melo pode ter sido a referência mais imediata de João Filho. No entanto, também é possível discernir, na dicção poética de Cunha Melo, um acento cabralino, por isso acredito que a aproximação ainda faz sentido.
[5] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 131.
[6] Wladimir Saldanha, no posfácio do livro, assim afirma a respeito da série de poemas intitulada “Pequenos tesouros portáteis”: “Toda essa luz, como parece evidente, é a metáfora maior de uma transcendência”. SALDANHA, Wladimir. “Entre coisa e céu, amoravelmente”. In: JOÃO-FILHO, 2014, p. 124.
[7]
O Light Invisible, we praise thee!
Too bright for mortal vision.
O Greater Light, we praise thee for the less;
The eastern light our spires touch at morning,
The light that slants upon our western doors at evening,
The twilight over stagnant pools at batflight.
Moon light and star light, owl and moth light,
Glow-worm glow light on a grassblade.
O Light Invisible, we worship thee!

ELIOT, T. S. Obra completa, volume I: poesia. Edição bilíngue. Tradução Ivan Junqueira. São Paulo: Arx, 2004, p. 327.
[8] ABRAMS, M. H. O espelho e a lâmpada: teoria romântica e tradição crítica. Tradução Alzira Vieira Allegro. São Paulo: Editora Unesp, 2010.
[9] BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Edição bilíngue. Tradução Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 444.
[10] AUERBACH, Erich. “As flores do mal e o sublime”. In: Ensaios de literatura ocidental. Tradução Samuel Titan Jr. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2012, p. 330.
[11] BENJAMIN, Walter. “Parque central”. In: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo — Obras escolhidas, vol. III. Tradução José Carlos Martins e Hemerson Alves Batista. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 180.
[12] Idem. Origem do drama trágico alemão. Tradução João Barreto. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, pp. 169-201.
[13] Idem. “Sobre alguns temas em Baudelaire”. In: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo — Obras escolhidas, vol. III. Tradução José Carlos Martins e Hemerson Alves Batista. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 105.
[14] Idem, ibidem, p. 111.
[15] Cf. Idem. “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica, arte e política — Obras escolhidas, vol. I. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 207-8.
[16] Cf. AUERBACH, op. cit., p. 330.
[17] BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. Tradução José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 143.
[18] Idem, ibidem: p. 144.
[19] “Portanto, é necessário, quando falamos conforme a verdade, ou seja, ao dizermos o que sabemos, que o verbo nasça da mesma ciência retida na memória, e seja totalmente idêntico à ciência de onde procede. O pensamento informado pelo que sabemos é o verbo pronunciado no coração. Verbo que não é palavra grega, nem latina, ou qualquer idioma”. AGOSTINHO. A trindade. Tradução Augustinho Belmonte. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1994, p. 505.
[20] BAUDELAIRE, op. cit., p. 126.
[21] PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Tradução Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2013, pp. 69-74.
[22] Idem, ibidem, pp. 81-3.
[23] “Baudelaire fez da analogia o centro de sua poética. Um centro em perpétua oscilação, sempre sacudido pela ironia, pela consciência da morte e pela noção de pecado. Sacudido pelo cristianismo”. Idem, ibidem,pp. 77-8.
[24] Para Benjamin, a grande eficácia da poesia baudelairiana baseia-se principalmente na oposição da alegoria à correspondência. Após descrever como as informações olfativas em Baudelaire realizam a ideia de correspondência, o pensador alemão afirma: “As flores do mal não seriam, porém, o que são, fossem regidas apenas por esse êxito. O que as torna inconfundíveis é, antes, o fato de terem extraído poemas à ineficácia do mesmo lenitivo, à insuficiência do mesmo ardor, ao fracasso da mesma obra — poemas que nada ficam devendo àqueles em que as correspondances celebram suas festas”. BENJAMIN, 1989, p. 135.
[25] PAZ, op. cit., p. 80.

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Fonte: http://antenasdemarfim.blogspot.com.br/2015/11/a-poesia-de-joao-filho-luz-de-joao.html

*Emmanuel Santiago é poeta, autor de Pavão Bizarro (Patuá, 2014).

*Emmanuel Santiago é poeta, autor de Pavão Bizarro (Patuá, 2014).