EU QUERIA OUVIR O SILÊNCIO…

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Luiz Bragança de Pina*

O sol se pondo. Mochila de livros nas costas rumo à montanha (combinamos um lugar que fosse alto e distante) e aí entender por diálogos afins o som do silêncio. Chego e os amigos aguardam-me. João Filho, à minha direita, acompanha-me na jornada adentro. Escuridão. Os ruídos da caminhada. Não mais ouço os seus passos; segundos depois, escuto a sua voz: “o silêncio é a fala que o deus dá?”1.  Um vulto brilhante repentinamente surge na escuridão e nos meus ouvidos “(…) miava silêncio”2. Comovi-me e olhei para dois pontos luminosos…

A escuridão afirmava-se azulada. A noite é azul, bem sei. Flaubert atenta por alguns instantes, escreve, reescreve, verbaliza: “(…) e por toda a parte um silêncio tal que se podia ouvir o roçar de uma faixa de seda ou o eco de um suspiro.”3, que vai longe. Sossego-me de olhos fixados no horizonte monocromático e Alberto de Oliveira complementa: “No silêncio geral, o eco dos montes.”4. A escuridão da noite de um azul denso havia sido marcada pelo frio doloroso, e Cruz e Souza então simboliza: “Silêncio dos silêncios sugestivos (…)”5.

A minha mão direita, a mão direita do João, um aperto forte seguido de um abraço fraterno que, no seu portar metafísico, distancia-se na perscruta do silêncio, quando declama: “Escuro como silêncio puro./Música?/Não soubemos.”6. Aconchego-me a um monte com um grosso manto e cubro todo o meu corpo. Adentro da escuridão e de mim volteios de andorinhas à espreita-despedida dos amigos, quando vejo os meus olhos olhando João montanha acima com uma andorinha sobre a sua cabeça, na companhia de dois pontos luminosos trotando… Eram os olhos do gatinho preto da Cecília Meireles, o mesmo sofrido bichinho “tão sujo”7 que “parecia cinzento”8. Batia rápido o coração da poetisa por um lugar onde o gatinho ficasse “protegido e consolado”9. Então a minha voz reverberou na abóbada celeste: “Cecília, anuncio, para consolá-la, que aqui o seu gatinho não mia ‘vazio’, ele vive e o ‘o espírito do amor’ não mais vai chorando no seu peito, alegrado por seu bom amigo de poesia e de silêncio, do mesmo silêncio anunciado numa crônica sua sê-lo ‘(…) privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.’10 Lembra?”.

Ao longe, o miado feliz do gatinho ergue-me da escuridão para os meus ouvidos receberem os trinos das andorinhas (trilha sonora da primavera)…

“Como é o som do silêncio?”.

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1 – “A Dimensão Necessária” (Mondrongo: 2014), de João Filho, p. 69.

2 – Da crônica ‘Imagem”, p. 17 e também as notas 7, 8 e 9, p. 18; nota 10 para a crônica “O Livro da Solidão”, p.119,  in: “Coleção Melhores Crônicas – Cecília Meireles”, seleção  e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho para a Editora Global 2012.

3 – Do conto “Lenda de São Julien Hospitaleiro”, in “Três contos”, de Gustave Flaubert, trad. Flávio Moreira da Costa para a LP&M, 2010, p. 71.

4 – Do poema “Velha Fazenda”, in “Nossos Clássicos”, organização de Geir Campos para a editora Agir, Rio de Janeiro, 1959, p. 70.

5 – Do poema “Esquecimento”, in “Obras Poéticas – Broquéis e Faróis”, de Cruz e Souza, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1945, p. 99.

6 – Do livro (PDF) “Três Sibilas & Fluxomargem” (2005), de João Filho.

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Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista, cronista e roteirista audiovisual

Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista, cronista e roteirista audiovisual

UM LIVRO QUE VALE POR TODA A VIDA

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Luiz Bragança de Pina*

SABE aqueles livros que a gente vai lendo, sublinha algumas passagens, volta e lê novamente? A Dimensão Necessária (Mondrongo, 2014), do poeta João Filho, é um desses, em que muito a gente para, sublinha e deixa a nossa marca, e pensa meditando sobre a vida por meio das nuances envoltas nas imagens; das razões que ficam e das razões não ditas; dos ensinamentos que atravessam os tempos, como esse:

“O sol do Amor é implacável, tudo mostra”. (p. 30)

Deus tudo nos mostra tão claramente, porque tudo o que é bom atua na límpida claridade, até mesmo no escuro da noite quando você sonha, porque quando você sonha e o sonho é claro, Deus está presente. Ao contrário, quando você sonha e diz “tive um sonho confuso”, não foi sonho bom.

Deus é Amor, portanto, Caridade, que rima com luminosidade.

Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

MADRUGADA DOS DIAS DE TODOS OS DIAS

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Luiz Bragança de Pina*

Ela chega de mansinho e me confia (e como os meus pensamentos vão longe) à sua seiva de esplendor. Dia após os dias do interstício de vidros circulares no meu quarto eu retinha o frescor roseado na memória a fortificar os meus pensamentos noutras noites, prenúncio marcado pela oração de agradecimento ao Senhor pela Luz Acolhedora, Luz do Mundo: Vida.

Noites. Guardo aqueles momentos: uma flor no jardim debaixo da minha janela por onde entrava um perfume de fechar os olhos e imaginá-la… A mesa próxima da janela. A luminária: luz para as palavras; um papel solto; um lápis. Um poema escrevia, lia, reescrevia… Perdia-me nas noites métricas terminadas em dias brancos almofadados pelas nuvens-condutoras alçando-me ao poema perfeito do poeta à Vida: frescor do tempo…

Quando o sol chega, aquelas mesmas nuvens alvas almofadadas esvaem-se para o sorriso azul do mundo receber as tardes, quando se despedem do sol e outra noite chega com o brilho do lírio branco marcado no quarto, madrugada adentro de todos os tempos:                  

Com você as minhas noites são dias;
O silêncio chega e os dias são glórias.
Mesmo sem o verbo, você é toda palavras:

Aurora.

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Fonte: blog do poeta João Filhohttp://www.voosempouso.blogspot.com.br/

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Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

Luiz Bragança de Pina*, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

NO CAMINHO ENCONTREI UM LIVRO

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– Por causa dele voltei no tempo para dentro de mim, e uma janela se abriu.

Luiz Bragança de Pina*

Selva Nepal

Uma árvore lá. Oh pura sobrelevação!
Orfeu canta. Oh árvore mais alta nos ouvidos!
E tudo se aquietou. Mas na própria quietação
novo início, signo e mudança estavam contidos.

(Rainer Maria Rilke)**

ENCONTREI um livro de poemas no caminho onde havia uma racha, e nela entrei mata adentro da memória, com o livro observando-me a folheá-lo sob este mundo verde-verdejante, onde não sei, profundo e distante, ouvi um canto acompanhado da lira movendo árvores em silêncio luzidio, e a voz nos meus pensamentos: “poemas são capazes de despertá-lo para a vida e levá-lo para dentro de si mesmo muito do que serve para outras pessoas de todos os tempos.” E a mesma voz, rotunda, sobrepôs-se: “(…) só o tempo consome o próprio tempo.”1.

Guardei essas palavras possíveis de serem encontradas por toda uma vida nos livros (não qualquer livro!) de poetas vivos ou mortos com a marca dos nossos olhos, do nosso tato, do nosso cheiro; dos pensamentos dele manifestados em imagens, como eu pude dimensionar de cada imagem de vários poemas de tantos poetas no livro-destino A Dimensão Necessária, marcado na minha memória; marcado na alma… Além da capa havia…

Aconcheguei-me debaixo de uma árvore e embalado pela audição da lira, adormeci. No chão, feito tapete rosado pelas flores caídas, chegava-me da memória (seria um sonho?) um jardim espiralado da árvore florescente das flores em frutos (refrigério à meditação), indo e sorvendo, indo e sorvendo… Era um “(…) jardim sem calendário,/pleno de azul e acácias, sorve/esta manhã e o seu contrário:/o que acompanha o que se move.”2. Lembrança marcada pelo suave vento seguido do balanço da copa da árvore, intuindo-me ser dele longe dos ouvidos vindo da árvore florescente das flores em frutos com o mesmo “(…) silêncio luminoso (…) ”3… Então presenciei Camões pedir a um anjo que o acompanhasse numa visita à Terra. Chegam. Camões folheia o mesmo livro colocado naquela estrada (não qualquer caminho!), e, bem à frente, numa linha vertical azulada de acácias, os meus olhos aprofundam-se na minha vida futura! Eu soube, no exato instante da minha consciência adormecida, que eu estava na companhia do eterno português, ele, um mensageiro em passeio com o poeta João Filho, no jardim espiralado da árvore florescente das flores em frutos, sob a brisa do ruflar das asas angelicais:

– “Ei-lo que me alegra as extensões postas nessa imensidão de uma dimensão, quão necessária aos mortais, ó poeta!”. Camões prosseguiu com as suas elucubrações, porém, quando ouvi “poeta”, trazida pela brisa daquele vento suave marcado na minha pele, como se deslizasse sobre ela bolas de algodão, olhei ao derredor do meu quarto e minha mão direita tateava o livro; e a mesma suave brisa do ruflar das asas do anjo como sons da lira pendeu o meu olhar para uma abertura azul, a mesma azulada de acácias (a luz!) entre a folhagem florescente da árvore das flores em frutos (única) sobrelevada, donde se desprendiam olorosos brilhos cintilantes de sabores róseos e azulados, adentro nos meus pensamentos assim:

“Manhã dissipadora,
azul e antifantasmas,
seu vasto lençol de luz
protege sem esconder,
materna como que nutre.”4

Essas palavras corretas ecoaram o meu retorno à poesia (dantes uma janela fechada), no caminho com o livro na minha mão direita e o dedo indicador marcando páginas: “Lições da luz/inesgotável”5. Despertei-me e não mais havia a mata, a árvore, o jardim espiralado, senão a brisa adentrando pelas frestas da janela do meu quarto para caírem nos meus ouvidos. Abria-a e simultaneamente a minha boca era movida por aqueles versos medidos, ritmados, bem sei que originados do jardim espiralado da árvore florescente das flores em frutos (dádiva), dos tempos como lembrança para este mundo de um dia nascido “como quem ri”6: dia claro, sem nuvens, de um “(…) azul exato, (…)”7, quando me descubro desnudo respirando a luz da manhã e os meus olhos nos olhos azuis saltitantes de sorrisos de uma criança, que passa debaixo de uma árvore (eu me lembro!) levando na mão direita um fruto, e olhando-me com um olhar de safira…

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** “Poemas”, trad. José Paulo Paes para a Companhia das Letras, 2013, p. 173.

1 Trecho do poema, p. 70, assim como outros adiante indicados do livro A Dimensão Necessária (Mondrongo, 2014), do poeta João Filho. Nota 2, pp. 56-57 (do poema “Pequeno oratório”); nota 3, p. 85 (“Considerações sobre a derrota”); nota 4, p. 83 (“Os dias grandes”); nota 5, p. 98; nota 6, p. 95 (Poema da seção “Pequenos tesouros portáteis”) e nota 7, p. 81 (“Sombra de nuvem”).

Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

*Luiz Bragança de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

 

 

 

“AVE MARIA” PARA MARINA

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Luiz Bragança de Pina*

Hoje eu me lembrei da minha mãe. Aliás, sempre a tenho junto de mim nos momentos felizes, quando ela me acompanha sorrindo; nos momentos tristes, quando a vejo diante de mim, serena, e os seus olhos dizendo-me: “Filho, erga-se em ânimo, que a vida também há de reservar-lhe encantos”. Não existe palavra mais doce neste mundo do que a de uma mãe. Por isso, quando os meus ouvidos descobrem a voz da minha mãe, sinto o meu coração se encontrar com a Graça e me lembro do Grande Mar com as luzes da viração e a brisa de um silêncio misterioso… Quando eu passeio com Deus e os meus olhos olham para o além deste mundo, recebo o toque sereno de uma mão e sou embalado por uma voz feminina, delicada, de suaves notas como se tivessem saído de alguma janela aberta no céu, uma janela azul, de um azul de vida, donde centelham luzes da viração do dia refletidas na minha memória com Marina, mar da minha vida, fonte da minha existência: minha mãe, para quem as lágrimas que saem dos meus olhos (penso em Maria) transmutam-se em pétalas rosadas para as mais perfumadas das mais belas rosas de todos os jardins floridos…

Do Amor, Deus revelou a todos os seus filhos em infindas Auroras, que um dos mais belos é o amor de uma mãe pelo filho. Abençoado é o filho que olha a sua mãe, estufa o peito para o mundo, e declama: “Mãe, eu te amo!”.

Composição com rosas, de Henriette de Longchamp

Composição com rosas, de Henriette de Longchamp

Amigas e mães, agora penso em todas vocês, na certeza da misericórdia de Nossa Senhora Virgem Santíssima, cujo manto cobre as suas caminhadas neste mundo, fortalecendo-as para a criação dos seus filhos e embalando os seus corações na esperança de um futuro honrado e forte para eles. Sim, mães-amigas, Ela, a mais sofrida das mães, a que enfrentou a crucificação do seu filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o exemplo maior de todas as mães do mundo.

Deus guarde todas vocês no infinito coração de Maria.

Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

*Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

 

PRIMAVERA

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Lêdo Ivo

StatueCronista, jamais celebrarás a primavera autêntica: todos os anos, por uma tentação de ofício, a bela quadra de agora te incita, e vais para a tua máquina portátil decidido a pôr as cartas na mesa, impor tua pequena verdade subjetiva, que se nutre da nostalgia dos dias iguais às noites, e de um veemente equinócio da primavera, quando o sol corta o equador.

O fantasma da coerência, inimigo de sangue a fogo dos cronistas burocratizados hebdomadàriamente, olha para o pedaço de papel onde rebenta, na primeira linha escrita, a luz de um azul sem rotina, e espalha em torno um riso sorrateiro.

Zomba dêsse tempo interior que é como as pequenas estações ferroviárias onde os trens não param para despejar passageiros, dessa quadra feita de disponibilidades psicológicas e de estilhaços românticos que vão procurar na paisagem um fogo alentador. E seu riso maior é para a criatura que, sentada a uma mesa, tenta ordenar a vertigem das tonalidades e dos sinais fragmentários do panorama, e assim fazer as horas, os meses, as estações. Mas o cronista, com sua miúda arte de tenacidade, insiste, evoca um instante em que tudo foi mudado, como se a brisa houvera polido um cristal , ressuscita árvores rigorosamente verdes, um domingo repetido todos os dias no ponto mais alto do céu, e prossegue em seu rito dactilográfico.

Há primavera, mofina embora. Além do quarto do corifeu inconformado que a proclama, nesse universo chamado meio da rua, vai andando um homem.

De repente, êle entra numa loja, compra um aquário e resolve não ir trabalhar nesse dia. Fechado em casa, passa horas e horas diante do pequeno oceano particular adquirido num minuto de alumbramento em que conclui que a vida não vale a pena e a dor de ser vivida se o degas não pode comprar um aquário. E, o dia inteiro, êle assiste às evoluções dos peixinhos vermelhos, oferece miolo de pão a duas piabinhas cinzentas, admira a escassa mas evidente vegetação de seu atlântico portátil.

E outro cidadão, que não se compraz com a fauna concentrada de um oceano, e sim com a visão total do melancólico planeta em que vivemos, compra um globo terrestre dotado de uma tomada elétrica que o torna iluminado. E, silencioso tirano dos mares, senhor dos continentes, a espelhar na fisionomia um judicioso fastio universal, êle gasta seu tempo, nababescamente, vendo como este mundo é grande e belo e colorido, verificando como esta joça é pequena.

***

Fonte: Lêdo Ivo (1924 – 2012), A CIDADE E OS DIAS (Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1957), pp 31, 32 e 33. Observação: era diretor da editora nessa época, o escritor Herberto Sales, autor de “Cascalho”, lançado em 1944.

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RITA

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Rubem Braga (1913 – 1990)

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a ateve.

Janeiro, 1955

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Fonte: “200 crônicas escolhidas” (35ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2013), p. 308.

Poemas do livro inédito ‘Sob o Cruzeiro do Sul’

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João Filho*

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ADÉLIA DE CASTRO,
NA IGREJA DA GRAÇA

“Aprendi a esperar algumas coisas:
amigos, certos livros, boas chuvas,
a luz dentro do tempo nas manhãs,
o seu corpo sonhando no meu colo,
os versos invisíveis mais à mão,
a passagem das horas descabidas
em que as harpias seculares guincham
meu nome de batismo como cúmplice.
Aos pés da espera, sentam-se as idades
e a paciência é fruto de outra espera,
tendo o silêncio como ouvinte único.
E cai o gota a gota dos segundos
no olho do real com mais doçura
e entendo que esperar sustenta o mundo.”