NOVAMENTE “ROCKY, UM LUTADOR”

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Luiz Bragança de Pina*

Desta vez assisti ao filme, de 1976, em blu-ray, mídia que comprei após o Ano Novo. A cena inicial, uma luta vencida pelo protagonista, não deixa dúvidas: ele renascerá. E está lá, no ginásio, a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, com uma inscrição: “Ressuscitar”. Cinema é imagem e nada num filme, quando bem realizado, é gratuito.

O drama é bem contado por força da direção de John G. Avildsen, com planos que dão conta de cada cena e movimentos de câmera correspondentes: quando Rocky, por exemplo, visita o local para a maior luta da sua vida; os grandes cartazes dos lutadores, um frente ao outro com a câmera acentuando cada olhar de Rocky. O ambiente é devidamente organizado, onde predominam as cores da bandeira dos EUA.

Outras imagens importantes: quando Rocky, bem cedinho, acorda, aquece-se em frente à sua casa e inicia os treinos correndo: vira à direita saindo do seu bairro feio e sujo para outra parte da cidade, limpa e bonita; as luzes verdes etc. São indícios que nos trazem a sensação da vitória (Rocky objetiva manter-se de pé, pelo menos, até os últimos rounds).

A trajetória desse herói é marcada pela determinação e pela coragem, valores que devemos carregar como emblemas na busca por nossos objetivos. Enfim, o boxe é um símbolo de revelação da trajetória de Rocky, que fez dessa prática um meio de sobrevivência com a esperança de chegar a dias melhores, porque o boxe foi para ele “A vida toda um diálogo só”1.

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1 Do poema “O Guia”: p. 89 do livro “A Dimensão Necessária” (Mondrongo, 2014), de João Filho.

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Observações: com Rocky, um lutador, o diretor conquistou o Oscar de melhor filme e melhor diretor em 1977. O cartaz do filme tirei do Pinterest.

Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

*Luiz Bragança de Pina é diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

 

 

DE EMILY DICKINSON

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"Between the waves" (1898), de Ivan Aivazovsky

Between the waves (1898), de Ivan Aivazovsky

Como se o Mar rompesse
Mostrando um outro Mar –
E fosse – um outro – nesse
Mar ainda pré-formar –

Mares do Mar – que invade
As Praias singulares
De outros futuros Mares –
Nestes – a Eternidade –

***

As if the Sea should part
And show a further Sea –
And that – a further – and the Three
But a presumption be –

Of Periods of Seas –
Unvisited of Shores –
Themselves the Verge of Seas to be –
Eternity – is Those –

(c. 1863)

Fonte: Não Sou Ninguém, Emily Dickinson (1830 – 1886), trad. Augusto de Campos (São Paulo: Editora Unicamp, 2008), pp. 62-63.

O MARTÍRIO DE SANTO ESTEVÃO

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Claudio Sousa Pereira*

"Apedrejamento de Santo Estêvão", pintura atribuída a Luigi Garzi

“Apedrejamento de Santo Estêvão”, pintura atribuída a Luigi Garzi

(I)

(EM SONHO). Poeira crescente,
vejo a multidão concentrada,
que num movimento executa
o homem que fazia prodígios.

Aproximo. E o alarido aumenta.
Agora, em braços levantados,
aquele em que na única fala
resumiu por completo a história;

da sua face escorre sangue,
e dos seus olhos apiedados
se distende do chão para o alto
neste que foi o último esforço.

Embora ao meio das pedradas,
entre os sujeitos furiosos,
sinto o teu espírito intacto
e escuto o que tua voz clama:

“—Senhor Jesus, guarda minh’alma,
que sejas piedoso com eles,
Senhor, não os leves em conta,
e perdoa-lhes deste pecado.”

(II)

Em meio às pedras viu-se a Glória,
e a crença e chama da certeza,
quando fitou os céus abertos
através da imensa clareza.

Um homem, assim refletido,
prostrou-se ao crime cometido:

“—Nós somos o que não queremos,
mas fazemos o que nós somos,
e a isto feito, não mais tememos.

Eis aí — a virtude plena —
de nossa miséria terrena.”

***

Cláudio-Sousa-Pereira* É poeta e ensaísta. Sobre ele, disse o poeta, cronista e escritor, João Filho: “Claudio Sousa Pereira pertence à linhagem poético-espiritual do chamado neossimbolismo brasileiro. E espiritual diz tudo sobre o fazer literário desse jovem poeta, que alia uma inteligência sensível, o rigor formal, a contemplação filosófica e amorosa-metafísica do mundo além da musicalidade do verso. Das formas fixas escolhidas por ele a mais cultivada é o soneto. Porém, ao trabalhar a terça rima em poemas de fôlegos mais longos — “O caminhante” e “O sobrevivente”, para ficarmos em dois exemplos — Claudio Sousa Pereira realiza-se de modo exemplar, demonstrando capacidade narrativa-reflexiva e dramática. Consciente de sua faina poética, ele sabe o risco que corre ao dar às suas composições um tom passadista, sem, com isso, incorrer em anacronismos. Com paciência e lucidez Claudio Sousa Pereira prepara o seu primeiro single: Sentida música.”.

[A dor de cada um, Senhor, nos dai...]

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João Filho*

A dor de cada um, Senhor, nos dai
de acordo for, nem menos nem demais,
– cada cruz sua noite celebrai –
imploro-Vos sabendo-me incapaz

de suportar a minha. Debandai
demônios, que já cedo ante os vitrais
de trevas, desenhados por quem cai,
como eu caí, em sendas irreais.

O ser que elide a dor é sem saída,
agora que o impasse se faz vida
em pleno corredor deste hospital;

em fios é mais um que se debruça
e no núcleo da dor lento soluça:
o extremo do amor, Pai, é quase um mal.

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Fonte: soneto do livro “A Dimensão Necessária” (Mondrongo, 2014), p. 54.

*João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA)em 1975. Poeta e escritor, participou de algumas antologias, dentre elas: Terriblementefelices. Nueva narrativa brasileña (Emecé 2007, Argentina); Travessias singulares – Pais e filhos (Casarão do Verbo, 2008); Geração Zero Zero, fricções em rede (Língua Geral, 2011); PopcornuntermZuckerhut (Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha). Publicou Encarniçado, contos (Baleia, 2004); Ao longo da linha amarela, contos (P55, 2009); A dimensão necessária, poesia (Mondrongo, 2014); Dicionário amoroso de Salvador, crônicas (Casarão do Verbo, 2014).

*João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA)em 1975. Poeta e escritor, participou de algumas antologias, dentre elas: Terriblementefelices. Nueva narrativa brasileña (Emecé 2007, Argentina); Travessias singulares – Pais e filhos (Casarão do Verbo, 2008); Geração Zero Zero, fricções em rede (Língua Geral, 2011); PopcornuntermZuckerhut (Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha). Publicou Encarniçado, contos (Baleia, 2004); Ao longo da linha amarela, contos (P55, 2009); A dimensão necessária, poesia (Mondrongo, 2014); Dicionário amoroso de Salvador, crônicas (Casarão do Verbo, 2014).

“AVE MARIA” PARA MARINA

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Luiz Bragança de Pina*

Hoje eu me lembrei da minha mãe. Aliás, sempre a tenho junto de mim nos momentos felizes, quando ela me acompanha sorrindo; nos momentos tristes, quando a vejo diante de mim, serena, e os seus olhos dizendo-me: “Filho, erga-se em ânimo, que a vida também há de reservar-lhe encantos”. Não existe palavra mais doce neste mundo do que a de uma mãe. Por isso, quando os meus ouvidos descobrem a voz da minha mãe, sinto o meu coração se encontrar com a Graça e me lembro do Grande Mar com as luzes da viração e a brisa de um silêncio misterioso… Quando eu passeio com Deus e os meus olhos olham para o além deste mundo, recebo o toque sereno de uma mão e sou embalado por uma voz feminina, delicada, de suaves notas como se tivessem saído de alguma janela aberta no céu, uma janela azul, de um azul de vida, donde centelham luzes da viração do dia refletidas na minha memória com Marina, mar da minha vida, fonte da minha existência: minha mãe, para quem as lágrimas que saem dos meus olhos (penso em Maria) transmutam-se em pétalas rosadas para as mais perfumadas das mais belas rosas de todos os jardins floridos…

Do Amor, Deus revelou a todos os seus filhos em infindas Auroras, que um dos mais belos é o amor de uma mãe pelo filho. Abençoado é o filho que olha a sua mãe, estufa o peito para o mundo, e declama: “Mãe, eu te amo!”.

Composição com rosas, de Henriette de Longchamp

Composição com rosas, de Henriette de Longchamp

Amigas e mães, agora penso em todas vocês, na certeza da misericórdia de Nossa Senhora Virgem Santíssima, cujo manto cobre as suas caminhadas neste mundo, fortalecendo-as para a criação dos seus filhos e embalando os seus corações na esperança de um futuro honrado e forte para eles. Sim, mães-amigas, Ela, a mais sofrida das mães, a que enfrentou a crucificação do seu filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o exemplo maior de todas as mães do mundo.

Deus guarde todas vocês no infinito coração de Maria.

Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

*Luiz de Pina, diretor de conteúdo da Andirá Comunicação, jornalista e roteirista audiovisual

 

PRIMAVERA

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Lêdo Ivo

StatueCronista, jamais celebrarás a primavera autêntica: todos os anos, por uma tentação de ofício, a bela quadra de agora te incita, e vais para a tua máquina portátil decidido a pôr as cartas na mesa, impor tua pequena verdade subjetiva, que se nutre da nostalgia dos dias iguais às noites, e de um veemente equinócio da primavera, quando o sol corta o equador.

O fantasma da coerência, inimigo de sangue a fogo dos cronistas burocratizados hebdomadàriamente, olha para o pedaço de papel onde rebenta, na primeira linha escrita, a luz de um azul sem rotina, e espalha em torno um riso sorrateiro.

Zomba dêsse tempo interior que é como as pequenas estações ferroviárias onde os trens não param para despejar passageiros, dessa quadra feita de disponibilidades psicológicas e de estilhaços românticos que vão procurar na paisagem um fogo alentador. E seu riso maior é para a criatura que, sentada a uma mesa, tenta ordenar a vertigem das tonalidades e dos sinais fragmentários do panorama, e assim fazer as horas, os meses, as estações. Mas o cronista, com sua miúda arte de tenacidade, insiste, evoca um instante em que tudo foi mudado, como se a brisa houvera polido um cristal , ressuscita árvores rigorosamente verdes, um domingo repetido todos os dias no ponto mais alto do céu, e prossegue em seu rito dactilográfico.

Há primavera, mofina embora. Além do quarto do corifeu inconformado que a proclama, nesse universo chamado meio da rua, vai andando um homem.

De repente, êle entra numa loja, compra um aquário e resolve não ir trabalhar nesse dia. Fechado em casa, passa horas e horas diante do pequeno oceano particular adquirido num minuto de alumbramento em que conclui que a vida não vale a pena e a dor de ser vivida se o degas não pode comprar um aquário. E, o dia inteiro, êle assiste às evoluções dos peixinhos vermelhos, oferece miolo de pão a duas piabinhas cinzentas, admira a escassa mas evidente vegetação de seu atlântico portátil.

E outro cidadão, que não se compraz com a fauna concentrada de um oceano, e sim com a visão total do melancólico planeta em que vivemos, compra um globo terrestre dotado de uma tomada elétrica que o torna iluminado. E, silencioso tirano dos mares, senhor dos continentes, a espelhar na fisionomia um judicioso fastio universal, êle gasta seu tempo, nababescamente, vendo como este mundo é grande e belo e colorido, verificando como esta joça é pequena.

***

Fonte: Lêdo Ivo (1924 – 2012), A CIDADE E OS DIAS (Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1957), pp 31, 32 e 33. Observação: era diretor da editora nessa época, o escritor Herberto Sales, autor de “Cascalho”, lançado em 1944.

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RITA

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Rubem Braga (1913 – 1990)

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a ateve.

Janeiro, 1955

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Fonte: “200 crônicas escolhidas” (35ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2013), p. 308.

VOLTO AO PASSADO COM UM LIVRO DE POEMAS

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Para Luciane Amato: colecionadora de memórias e João Filho: autor de A Dimensão Necessária, livro de poemas que me fez voltar no passado para dentro de mim.

Luiz Bragança de Pina*

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“Cercado que estou do meu olhar marinho”1, rememoro as circunstâncias vividas nas praias desde quando eu era um rapaz adulto em companhia de gentis pescadores que, espontâneos, convidavam-me para “um peixinho na brasa”. Aproximava-me deles à beira-mar, com os seus pescados para serem vendidos, alguns outros separados para serem assados numa pequena fogueira feita à lenha e,depois,degustados com pitadas de sal e gotas de limão. Tornava-me um comensal: culinária de pescador sentida a cada pedaço comido com as mãos. Apreciava. Sinto neste momento o gosto do peixe na minha boca e o vento amigo do mar esvoaçando os meus cabelos compridos libertos naqueles dias num chumaço armado como um “ouriço”. Comia os peixes e dispensava a cachacinha, pontual companheira nos momentos de lazer desses trabalhadores do mar.

Como são extraordinários momentos assim, vividos há muitos anos nas praias (Rio de Janeiro, Niterói, Cabo Frio, Búzios, Araruama), mantidos claros como se fossem cenas de um filme projetadas agora na parede branca atrás do meu computador, graças à leitura de Lume Cardume Chama (Editora 7Letras, 2014), do poeta Wladimir Saldanha. Não gosto de me prender aos anos, mas os finais da década de 1970 e o primeiro de 1980 foram importantes na minha vida: muitas incertezas, muitas; muitos passos errados; muitos encontros inúteis, e, anos depois, úteis, porque das inutilidades pude descobrir como separar pessoas e coisas, por mais que essas pessoas e essas coisas viessem a ser negadas depois. Diz o poeta: “(…) O que era erro, agora vejo, é correlato/(…)/Só não sei, porém, se com aquilo que foi ‘perca’/E que talvez ainda aqui se está perdendo/Como as ausências que a gente não aceita/(…)”2, quando me recordo de São Paulo Apóstolo: “Examinai porém tudo: abraçai o que é bom.”3

Gosto de livros de poemas capazes de provocar sensações memoriais, porque nos textos encontramos fontes da nossa memória. A leitura tem o poder de fazer o nosso imaginário multiplicar os momentos até ficarem claros com a língua guardada na boca e,assim,permitir o silêncio dos olhos enxergarem os instantes vividos, guardados, como, por exemplo, estar diante do mar numa quase-escuridão ao redor de fogueiras improvisadas como aconchegos de encontros de casais bêbados chegados dos Embalos de sábado à noite: curtindo sonhos artificiais sob o céu brilhante-lunar suavizando a força das ondas na praia. Era o seu limite, mas não para nós, jovens, que aí vivíamos libertos das amarras convencionais do cotidiano com muito rock and roll ressoado dos violões para espancar os ouvidos bêbedos com riffs que se tornaram clássicos, como o da música Smoke on the water, do Deep Purple. Época de tantas aventuras de uma geração “nem aí para a política” ou para os acontecimentos provocados no país e no mundo, porque o nosso mundo escolhido era o mar, onde nossos corações pulsavam pelas paixões.

As praias não cansavam e mais outras se aproximavam com as férias de janeiro e fevereiro, sem os apetrechos para a pesca – Ah, nunca pesquei um peixe na minha vida, senão com um porrete num sítio do meu pai, perto de Casimiro de Abreu, a terra do poeta dos poemas líricos lidos e apreciados. Porém, eu lia Casimiro sem as sensações poéticas advindas de Baudelaire, Théophile Gautier, Valéry, Mallarmé… Foram leituras complicadas… Acabei perdido em Verlaine e em Rimbaud! Admirava este mais facilmente, e, assim, admirava outros seus admiradores: Bob Dylan, Patti Smith, Dylan Thomas… Ah! Como o tempo passa e nos permite assistirmos às mudanças em nós mesmos. Como Deus é maravilhoso ao nos permitir escolher – quantas retas, curvas e encruzilhadas? Deus sabe de todas por onde andei. E Ele, mais do que tudo neste mundo, bem sabe dessas andanças e do caminho derradeiro por onde eu pude me descobrir enquanto homem; não sem antes, onde eu pude encarar os meus fracassos, os meus erros: “Quantos erros, Senhor!”.

São lembranças provocadas por Lume Cardume Chama, com passagens clareadas aos poucos, porque “(…) a lembrança não vem direto a um homem, vem por esquinas, dando voltas, pelos lados.”4. Assim, os poemas dessa obra serviram-me como gatilhos para recordar essas situações, inclusive as ruins. Prefiro, no entanto, representá-las como metáforas misturadas aos momentos de prazer: os peixes feios e perigosos, também comestíveis, como o peixe-pedra, que medra nas profundezas do mar; onde, na superfície calma e distante dos olhares curiosos, eu parava em companhia dela numa lancha que balançava feito gangorra pela ação das ondas, e, aí,nos entregávamos a desvairados beijos salgados. Noutro tempo, quando nenhum olhar curioso nos espreitava da areia, ela cobria um espaço no chão com a sua saída de praia para se tornar a “(…) minha cama como chapa (…)”5, onde os desvarios egoístas do gozo arregalavam os meus olhos num suspiro longo e sorridente para o céu: “Sensacional!”. “(…) Não foi meu nome, gravado a canivete (…)”6, mas uma parte de mim (vejo!) em Araruama como impressão digital: “Ah um paraíso sem cobras e cheio de tentações!”7.

Esses momentos vividos na praia (ainda posso sentir o som provocado pelas pisadas na areia) fizeram, revelo, sentir-me como criança. A imensidão marítima é testemunha das minhas brincadeiras (e de mais lembranças) de correr das ondas, de esculpir sei lá o que e imediatamente ver minha obra ser destruída por elas(chuá!) e os tatuís desabalados afundando-se na areia. Lembro-me, ainda, de me preocupar por haver olhares curiosos condenando-me por brincar na praia: “Adulto bobo feito criança!”. Brincava com os tatuís e era prazeroso catar conchas (“A concha alheia…/Procuras, como procuro,/e achamos só, no monturo,/uns grãos de areia.”8) e, de olhos fechados, sentir o som dentro do vazio delas, mas de um vazio movido por uma sensação de busca de sentido, algo como acontece dentro das igrejas, onde o instante é movido e os ruídos expandidos a reverberarem no vácuo da noite um facho de luz enquanto se espreita a vida.

Ficam na memória esses dias vagabundos pelas praias com a imagem do meu corpo flutuando para afundar-se feito paguro como numa “concha alheia” com Lume Cardume Chama (a luz, o fogo e a vivacidade da juventude; o ajuntamento dos amigos pelas aventuras; a paixão e o ardor por tudo que acreditávamos), agora todo meu, poema após poema adentrando uns nos outros para eu memorizar parte da minha vida praiana, com a “linha partida” devidamente na “laçada” de outra parte de mim como aprendizado para os anos seguintes. E o que é o mar, senão a imagem da vida?

Enfim, eis-me aqui diante desta tela branca do computador com estas palavras pretas do vigor de cada imagem, cada uma guardada em cada poema de Lume Cardume Chama em repouso na estante, à minha espera, para outras leituras-aventuras-descobertas, mesmo eu distante do mar, que me faz falta, mas de uma falta que preenche a minha memória de sorrisos por aqueles dias transmutados neste agora sorriso-lembrança, “(…) e que de novo/deixo/deixo e volto/àquele paraíso (…) meu éden (…)”9.

Sinto-me feliz por esse livro! Sinto-me feliz por lê-lo! Não sou crítico: sou leitor! Obrigado, Wladimir Saldanha.

1 – Paul Valéry, O Cemitério Marinho (Lisboa: Hiena Editora, 1987), p. 35.

2 – Trecho do poema “Maisum poema de peixes ou de cavalos”, p.49, in: Lume Cardume Chama. Observação: Todos os poemas citados nas notas 5 (“A mulher e o peixe”, p. 28.), 6 (“Lição de erros: Noronha”, p. 32.), 7 (“Lição de erros: Noronha”, p. 32.), 8 (Do poema “A concha alheia”, p. 19.) e 9 (Do poema “Lição de erros: Noronha”, p. 32.) são desse livro.

3 – 1 Tessalonicenses 5,21 – Bíblia “Edição Ecumênica” da Barsa: 1972, trad. Padre Antônio Pereira de Figueiredo.

4 – Carson MacCullers, A Balada do Café Triste (2ª edição, trad. Caio Fernando Abreu, Rio de Janeiro: José Olympio, 2010), in: conto “Uma árvore, uma rocha, uma nuvem”, p. 186.

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UM SONETO DE BRUNO TOLENTINO

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Cláudio Sousa Pereira*

I. 170

Foram dias estranhos, luz na periferia
da luz, como se agora, e lento, o corredor
do instante se esticasse e deixasse supor,
se não um desenlace, uma ante-sala fria
como a hora alongada que precede a agonia
do dia e desemboca aos poucos num sabor
metálico, de papel de estanho, uma anticor
de ocaso adivinhado, que ainda mal se anuncia.
Esses dias de luz mais fria, como os lembro,
tinham de uma claridade oblíqua, fotográfica,
entre a nudez metálica e a geometria errática:
Alexandria, abandonada membro a membro
a bacantes tardias, sensualmente sádica,
cortava-nos ao vivo no estanho de setembro.

(TOLENTINO, Bruno. A Imitação do amanhecer).

 

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

O soneto traz no seu contexto uma sugestão de mudança refletida no sujeito poético, que o instigava e angustiava os sentidos, além da conotação do tempo decorrido, do cromatismo das descrições metálicas, amargas e adstringentes. Assim, dá-se o processo de focalização do objeto em fotomemória evocativa do real, no substrato imaginado. Essa memória contemplativa alimenta o tônus principal desse poema-livro de fôlego que é A imitação do amanhecer. Esse soneto cabe no exemplo que se enquadra em todo o volume: um fluxo interior de uma atmosfera dramática, em tentativa de preservação de um passado em consonância com a mudança problematizadora do presente.